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Faces múltiplas de Vitória

Ali, exsurge a cúpula da imponente basílica de Santo Antônio, sonho do religioso que um dia deixou pátria, mãe e família, para trazer a estas terras a mensagem do Evangelho, o conhecido Pe. Mateus, um passionista. Aqui, os espigões das torres da catedral, de estilo neogótico, inspirado na Catedral de Colônia, na Alemanha. Ali, entre duas palmeiras, modestamente, também se pode ver a Igreja de Nossa Senhora do Rosário, que vai testemunhando tempo a fora a existência daquelas irmandades, sonhadas primeiro como forma de libertação para os escravos, ou em forma de enlevo espiritual, permitir esquecer as agruras pelas quais cotidianamente passavam.

Por todos os lados, águas, às vezes menos, outras, mais revoltas, a certo ponto, cooperando generosamente com a vida existente em outros ecossistemas contíguos, marulham em acordes únicos produzindo sempre sinfonias inacabadas ou desenham na superfície, traços sempre novos que não permanecem, tocadas, momentaneamente se espalham e em seguida, retornam ao conjunto inseparável. Beijam-lhe em rito permanente as extremidades, sem afetar-lhe as bordas.

Seu centro de geografia irregular é mesmo um sobe e desce. Experimente chegar nas imediações da Rua São Bento e prosseguir pela Graciano Neves. Lá, vire à direta, pode ser à esquerda, o que muito morador desconhece e se continua subindo, sem, contudo, chegar ao céu. Tem uma ladeirinha de inclinação respeitável se sua descida se der sobre rodas, pode sentir calafrio.
Por uma rua, você vai, por outra poderá vir, para chegar às extremidades. Se ao norte, dará de frente com o que foi o mais charmoso bairro da cidade, de casas que quase totalmente se foram, onde uma rua já não evoca a lembrança de Maria Antonieta Tatagiba, a poetisa de São Pedro de Itabapoana, onde se pegava um bonde que levava quem quisesse até a prainha no sopé do Convento da Penha – Vila Velha. Se ao sul, encontrará o bairro de Santo Antônio, onde está o grande dormitório no qual apesar de dor tirana, muitos ainda depõem os entes queridos que nos precedem, no aguardo do dia da eternidade.

Pela sua conformação ou aspecto com que aos olhos criativos de alguém se apresenta já recebeu diversos epítetos. Cidade presépio, visto que os morros que se mostram exuberantes por toda parte sempre guardaram inúmeros casebres que, à noite, iluminados pela luz elétrica sugeriam os arrabaldes de Belém onde Deus se fez homem como nós, ao nascer de uma Virgem que aceitou o projeto daquele em que depunha suas certezas e as consequências de uma gravidez tão pródiga, aos olhos de tantos, improvável. Cidade sol de um céu sempre azul. Pode ser este o mais próprio de todos, visto que ao sorriso do astro rei, como que raios se projetam nas águas do seu entorno e refletem por toda parte a magia da luz. Ilha do mel. Ilha sim, mas por que do mel um líquido doce que resulta do labor de numerosas colmeias. De onde vem o doce que sugeriu tal qualificativo? Talvez do resultado harmônico de tudo quanto sua beleza provoca em corações que adocicados só reste explodir em exclamativos ou dizeres de qualquer coisa.

O poeta a incrusta no seu verso inspirado, o compositor a amalgama nas notas melodiosas do seu canto, todos se apossam de ambos para externar o amor que lhe devotam.

E se é para falar de sabores capixabas, nem se olvide a frase mais célebre vazada da inspiração de Cacau Minijardim que definindo o que com peixes em toda parte se faz, saiu-se com esta: “moqueca só a capixaba, o resto é peixada”.

Todos usam coentro, cebolinha verde, uma cebola média, três dentes de alho, quatro tomates, pimenta malagueta, azeite de oliva, urucum e até azeite de dendê. Dispõem as postas de um badejo, dourado, outro bom peixe, mas o melhor mesmo de um robalo, em uma bela panela de barro, leva ao fogo e tal, mas se, enquanto vai cozinhando, não for recebendo ares de uma terra capixaba, a peixada pode até encher de água a boca, mas não será uma moqueca.

É uma cidade ilha esta Vitória! Pequenina, vestiu trajes de gente grande, abriga mais gente do que o recomendável para a tal qualidade de vida.

É berço de gentes de todo porte, de toda expressão, de qualquer sorte. É tudo e de tudo tem para quem a escolheu como morada. Viu-se constrangida pelo que já não detém, porque a modernidade roubou, ou em nome do desenvolvimento se fez.
Nem assim perdeu qualquer daqueles atributos, tal qual eternizada nos versos de Pedro Caetano: Cidade Sol, com o céu sempre azul / Tu és um sonho de luz norte a sul / Meu coração te namora e te quer / Tu és Vitória um sorriso de mulher / Do Espírito Santo, és a devoção / Mas para os olhos do mundo, és uma tentação / Milhões te adoram, e sem favor algum / Entre os milhões, eis aqui mais um.

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