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Entre o medo e a esperança

“Cuidadosamente não rir, não chorar, nem detestar as ações humanas, mas entendê-las”. Espinosa

Quando a vida se nos apresenta como uma experiência de alegria, segurança e bens suficientes para seguirmos adiante, não nos pautaremos nem pelo medo nem pela esperança.  Viveremos, simplesmente. E é tão bom viver assim. E é tão ruim viver o medo que pode beirar o desespero, ou a esperança que nunca chega a ser segurança. Dada a sua fragilidade o ser humano é facilmente arrastado para um lado ou para outro. Um leve movimento desfavorável da vida, dos acontecimentos, do acaso, do destino nos arremessa vulneráveis nos territórios do medo e, ou, da esperança.

Ah, quem dera não estivéssemos todos, no Brasil, entre o medo e a esperança. Estamos. Na verdade temos vivido no fragor das ondas deste largo oceano entre estes imensos continentes e são poucas as ilhas de tranquilidade que temos encontrado como abrigo. Além desta nossa fragilidade e tendência a ir para um lado ou para outro, no Brasil, questões amplas e complexas nos arremessam, constantemente, para um lado ou outro.

Nos tempos – mesmo que breves – da prosperidade, da saúde, do sucesso geralmente nos tornamos bem confiantes, cheios de nós mesmos, até jactanciosos. Nos dias das adversidades ouvimos e aceitamos muito facilmente qualquer orientação ou promessa. Nos tempos em que aportamos em ilhas venturosas ouvimos preferencialmente aos nossos próprios pensamentos, e a opinião dos outros é de menos, bem menos importância. Assim, se nos tempos bons somos totalmente centrados no próprio conselho e tino, nos difíceis somos totalmente suscetíveis a influências e sugestões dos outros. Ao invés de sondarmos em nós mesmos as razões da desventura preferimos buscar fora, num guia, num profeta, num mago os meios e modos de conjurar o pavor e retomar o curso bom da vida. E então, infelizmente, tanto o que tememos quanto o que esperamos localizamos para além da própria vida, das próprias forças, das próprias ações.

No Brasil, onde sempre foram grandes os espaços para o medo e a esperança, nos dias atuais, parece, se avolumam ainda mais. O medo do desemprego, da inflação, da violência. Medo de que o Estado se torne cada vez mais incapaz de gerenciar os bens públicos. Medo de que a corrupção sistêmica desmotive nossos jovens para o trabalho e a honestidade. Medo de que o tráfico se imponha cada vez mais sobre nossas ruas, praças e sobre as mentes de nossas crianças e jovens. E outros medos mais. Também se avolumam as esperanças, aquelas que na aflição estendem suas raízes. Mil “templos da esperança” – cada vez mais espetaculares – se erguem pelas nossas avenidas e bairros, denunciando que a religião substitui a educação, ao invés de a ela se somar. E quanto mais templos se erguem, mais comprovam sua ineficácia em transformar realidades. As sementes de esperança que plantam não resultam numa lavoura produtiva.

E neste tempo se apresentam a nós aqueles que nos querem representar e querem por nós exercer o poder. Pois bem! E nessa situação, por mais vãs que sejam as promessas, por mais ineptas que sejam as suas proposições, por mais incoerentes que sejam aqueles que apelam à nossa confiança podemos dar-lhes mais crédito e poder que deveríamos dar.

Bem, esperança e medo. Como sair deste entremeio? Como não ser nem jactancioso nem dependente de iluminados guias?  Como escapar desta tendência de buscar fora o que é preciso ser sondado em si mesmo? Como não ceder ao medo nem viver só de esperanças? Como não se portar como instrumento de atemorização e mortificação do outro? Ou, como não se aproveitar da aflição alheia para insuflar-lhe esperanças falaciosas e despotencializadoras? Como não instrumentalizar as Sagradas Escrituras, ou Deus – pelo medo e proposição dessas esperanças – e expandir domínios?

Agir. AGIR. Politicamente agir. Micropoliticamente agir. Uma ação ética com base em desejos fortes, desejos fortalecidos na lucidez, desejos atravessados pela coragem de ocupar o próprio papel na condução da vida. Não desperdiçar o cotidiano, não deixar de afetar positivamente, beneficamente, eticamente às pessoas. Não ceder aos apelos do poder, ao amor ao poder, ao desejo de ficar interesseiramente ao lado de quem tem poder.

Num tempo de escolher aqueles que exercerão a macropolítica não podemos esquecer a micropolítica que pode ser exercida todos os dias pelos quaisquer, e por qualquer um.

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