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É uma outra vida a que se quer viver

Vem aí o 7 de setembro, dia do grito, da independência, da pátria, e que bem poderia ser também o dia da afirmação de um outro Brasil, aquele cujo futuro abundante e generoso seria um hoje largo e tranquilo para todos. Mas não é. Muito nos falta. A vida se vai em dias de apertos, inseguranças e angústias. As décadas vêm, as décadas vão e o futuro bom para todos continua muito distante. Mas, o 7 de setembro que convoca nossas comunidades para um grito – o dos oprimidos (não gosto deste nome) – nos põe em análise, ou nos deveria por. Não porque pensar seja entretenimento, coisa pra feriado, mas porque as realidades nos agridem e nos forçam a isso, mesmo que nos feriados. Aliás, esta seria uma função do domingo, dos dias santos, dos feriados, nos dar tempo para pensar outros pensamentos, cultivar outras sensibilidades, dar-se à análise.

Neste processo uma primeira questão que me surge enquanto me renovo nos meus propósitos de exercer no cotidiano uma clínica que resgate as capacidades inventivas da vida é aquela que vem da paciente e assídua observação das comunidades eclesiais, dos seus rumos e modos, até porque me movimento com elas em tentativas de mais vida: Agarramo-nos demais a um lugar, a uma identidade, a um modo de ser. E a análise na qual somos postos nos indaga: de que maneira nossas comunidades eclesiais – que são convocadas a marcar este dia com um novo brado – precisariam ocupar um outro lugar, poderiam forjar novos traços para o seu perfil, poderiam desgarrar-se de seus modos cristalizados para ser outra? Proponho-me esta pergunta a partir de uma das “inspirações” da esquizoanálise de Gilles Deleuze e Feliz Guattari que diz que sempre é possível organizar as coisas de outro modo.

Claro, que nos acostumamos com nossos modos, nosso estilo, nossas verdades e tudo o mais parece estranho, não tão bom quanto o que pensamos e vivemos. É certo que para organizar a vida de outro modo é preciso antes de tudo ouvir os desejos, e ouvi-los como realidade. A realidade não é a realidade que representamos segundo nossos padrões mentais, nossas concepções, nossas ideias. A realidade é a surpresa, o inusitado, o inesperado, o que nos põe em cheque, ou nos choca, nos convoca, nos incomoda. E se quisermos mudanças haveremos de ouvir os desejos – não apenas os nossos – com o cultivo de novas sensibilidades, com o treino cartográfico do marujo que desenha o litoral no balanço das ondas. Nenhum patamar fixo, absoluto, solidificado em muitas “certezas” poderá nos possibilitar a sondagem dos desejos e a percepção mais aproximada da realidade.

Ah, ainda, quem se põe em análise, seja individualmente ou como instituição, tem que ir além do discurso sobre uma vida nova. É preciso sim, com perseverança, desinstalando-se do que já se conseguiu, seguir o desejo que diz com sussurros e gritos: é uma outra vida a que se quer viver.
Mas o que nos faz procurar ouvir os desejos acerca de uma outra vida que se quer viver se tudo parece dominado pelos modos capitalistas onde um único e hegemônico modo se estabelece sobre todos, impedindo singularidades e diferenças de emergirem como riquezas e força? É a atenção à vida e a certeza de que ela sempre poderá nos surpreender. Além do mais, por mais poderoso que seja os modos atuais de produzir subjetividades, ainda assim esse sistema globalizado deixa abertas brechas aos traços de singularidade e às iniciativas criadoras.

A comunidade eclesial tem sido o lugar da constatação e da proclamação da realidade e de sua aspereza, da reflexão, da afirmação de valores, da proposta de um outro mundo (O Reino). Mas, poderia ser ela também, mais eficazmente, um lugar em que se produz acontecimentos, e assim, produz a realidade que está por vir? Sejamos realistas, tentemos o impossível. A cada dia, em cada encontro, em cada ação e celebração a comunidade por suas fontes e destino pode adotar e reafirmar os modos de ser, viver, e conduzir processos que se revestem de novos jeitos. Mais do que o local do determinado (o instituído, o solidificado, o estabelecido) a comunidade pode com todo o cuidado preservar a fonte sempre jorrante da novidade (do Espírito). Não apenas o passado foi produtor de belas experiências. Na verdade belas experiências só podem surgir da crença de que o hoje é o lugar do acontecimento. Mas bom é saber, as coisas importantes não acontecem nunca onde nós as esperamos. O que importa, portanto, é o cultivo de novas sensibilidades. E não podemos esquecer, a produção de realidade se dá, pra começar, entre outras ações, pela abdicação dos modos coercitivos, passadistas, autoritários, inflexíveis.

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