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Dom Silvestre: ação profética na palavra, no silêncio e na oração

Ao definir a trajetória de Dom Silvestre Luiz Scandian a partir da dimensão profética, buscamos em meio a tantos afazeres aquilo pelo qual uma pessoa é ordenada presbítero e bispo, como foi o caso dele. É estar na linha da sucessão apostólica que alguém do meio do povo é chamado para este ministério ordenado. Foram seis anos como Bispo de Araçuaí e vinte anos como Arcebispo em Vitória. Alguns pontos podem ser destacados nestes anos, principalmente do tempo em que governou a Arquidiocese de Vitória.

O testemunho das pessoas que conviveram com ele define muito bem o que significava o seu trabalho pastoral. Conforme Dr. Agesandro da Costa Pereira, ex-presidente da OAB-ES, Dom Silvestre “sempre pediu o fim de vários fatos, eventos e condutas que comprometem a liberdade, a igualdade e a paz das pessoas”, e isso o transforma em baluarte na defesa dos direitos humanos. E isso não é opinião das “elites retrógradas”, “mas está consagrado na alma e no coração da nossa gente, dos sofredores, dos humilhados e dos ofendidos que suportaram as violências, as torturas e as humilhações e tantas outras atrocidades que ele corajosamente denunciou”.

E na missa de Sétimo Dia da morte do Dr. Alexandre Martins assim dizia aos fiéis presentes: “O objetivo desse crime horrendo era de intimidar a todos os que lutam como Dr. Alexandre”. Mais um soldado tombando, como foi também Padre Gabriel Maire, “mas um exército se põe de pé”.

A morte de Doutor Alexandre e tantas outros não nos intimidam, pois “a causa pela qual lutamos é nobre demais para desanimarmos. Nossa casa está pegando fogo: se não nos unirmos para apagar o incêndio, vamos morrer todos queimados”. E denunciava ainda em 2003 que o tráfico tinha criado ramificações dentro da polícia e em outros setores produzindo uma certa promiscuidade com os braços do Estado.

Dom Silvestre estendia sua palavra profética de denúncia e de defesa dos princípios dos Evangelho em qualquer situação. Na posse do Governador Paulo Hartung em 2007 assim proferia em seu discurso: “Há desafios enormes a serem enfrentados como a falta de escola pública de qualidade para as crianças pobres do interior e das periferias, falta de saúde pública de qualidade para os pobres, carência de moradias adequadas para milhares de famílias, falta de emprego e de salários suficientes para a demanda, a fome”. Tudo isso somente será alcançado a partir dos princípios éticos da justiça, da verdade, da honestidade, da solidariedade e a partir do reconhecimento da dignidade da pessoa humana”.

E se irritou quando alguém disse para ele que o que valia não era a ética, mas o desenvolvimento. E completava: “os valores éticos são o fundamento de qualquer sociedade humana. Sem eles a sociedade desmorona”.

Seu testemunho profético a partir da palavra ecoava nos mais diversos lugares. Assim era possível entender sua palavra silenciosa indo à frente das manifestações do Dia dos Excluídos ou no encerramento da Semana Social. Suas palavras ecoavam forte por ocasião das Festas da Penha, principalmente aquelas proferidas na Homilia de encerramento. E ao próprio Papa João Paulo II quando esteve em Vitória disse que agradecia imensamente pela “decisão de ir ao encontro dos mais pobres de Vitória, no Bairro São Pedro”, onde se ouve fortemente o grito de “justiça social, de solidariedade e de paz”.

E ao completar 80 anos ele toca num ponto muito crucial para os cristãos e católicos dos dias atuais. Ao responder a um repórter a respeito da atuação da Igreja nas questões sociais, de maneira lapidar proclama: “Só ir à missa é muito pouco”. Assim, deixa-nos com seu exemplo uma convocação para a ação profética para além da frequência às missas e cultos. O cristão verdadeiro é sal da terra e luz do mundo.

Mas onde é que Dom Silvestre buscava inspiração e força para a ação apostólica? Assim como os grandes santos e profetas, era no silêncio da meditação profunda que se punha a ouvir o que Deus lhe tinha a dizer. Recolhia-se com muita frequência, mesmo nos momentos de muita aflição e dificuldades na vida pastoral. Era no silêncio que se fortalecia.

Um livro organizado em sua homenagem tem como título que define sua personalidade “Serenidade em meio a altas ondas”. Para as suas ovelhas, era seu semblante sereno que indicava segurança e fé em Deus. E na serenidade com seu sorriso brando, sem grandes gargalhadas, mas com humor para compartilhar, que podíamos sempre encontrá-lo. O profeta tem que saber ouvir a voz de Deus para poder ter segurança nas palavras e nas ações. Não se ouve a Deus em meio ao barulho ensurdecedor.

Os jardins e plantas de Ponta Formosa são testemunhas do silêncio que ele carregava nas horas de altas ondas. E nesse silêncio, suas orações também podiam ser dirigidas a Deus. Quantos terços foram rezados nesses jardins! Despede-se assim “um pastor que escutava”, testemunha o padre Manoel David. Despede-se “o amigo dos pobres e pastor dos excluídos”, nos reafirma o padre Xavier. E assim despede-se e se põe definitivamente na contemplação do Mistério de Deus. Obrigado por tudo, Dom Silvestre. Receba a coroa da vitória!

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