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Dia Mundial dos Pobres: “Os pobres comerão e ficarão saciados” (Sl 22)

O Papa Francisco instituiu por meio da carta apostólica “Misericordia et Misera” (20 de novembro de 2016) um “Dia Mundial dos Pobres” na Igreja Católica que, em 2017, cai no dia 19 de novembro, ou seja, no XXXIII Domingo do Tempo Comum do Calendário Litúrgico. Segundo o Papa, esse dia foi definido a partir da inspiração do Ano Santo e conclusão do Jubileu Extraordinário da Misericórdia. Em suas palavras, “não poderá haver justiça nem paz social enquanto Lázaro jazer à porta de nossa casa”.

O quadro atual relativo à pobreza no mundo e no Brasil são alarmantes. Calcula-se que em 2017 o Brasil poderá chegar a ter 3, 6 milhões de pobres, caso não se reverta o crescimento do desemprego e a precarização das formas de trabalho. Segundo a ONU a linha de pobreza está situada na referência de alguém que recebe por dia até $ 1,90 (Dólar), ou seja, $ 57,00 dólares por mês; em reais fica em torno R$ 183,00. No mundo, conforme dados da ONU, a população situada neste patamar está em torno de 766 milhões de pessoas. O papa destaca as novas formas de pobreza no mundo como das pessoas desempregadas, dos sem-abrigo, dos sem-terra e das crianças exploradas. E conclama os católicos para uma Revolução em torno da Cultura da Misericórdia.

Até recentemente, a Igreja fazia um discurso de que ao pobre cabe a humildade para receber ajuda e ao rico cabe a generosidade em distribuir ajuda aos pobres. E foi a partir do Concílio Vaticano II que se insere a preocupação com as causas da pobreza. No caso Latinoamericano, as Conferências do Episcopado em Medellin (1968) e Puebla (1979) e com o desenvolvimento da Teologia da Libertação, o pobre aparece como uma categoria teológica. E Gustavo Gutiérrez é radical em termos bíblicos ao afirmar que “o compromisso com o pobre não pode evitar a denúncia das causas da pobreza”. Ou seja, ser cristão é muito mais que oferecer ajuda de maneira generosa em alguns momentos da vida cristã como no Natal em que se distribuem cestas básicas ou no inverno com a campanha dos cobertores.

No meio filosófico, a preocupação com a figura do pobre tem sido objeto de muitas reflexões, geralmente de cunho ético. A maior imoralidade que se vê na humanidade atual não está nas exposições artísticas de algumas figuras nuas, mas no tamanho da pobreza. Conforme Hannah Arendt, “o pobre é aquele que não tem direito a ter direitos”.

Portanto, trata-se de um radical processo de exclusão. Esta é uma das maiores causas da pobreza. E outra filósofa do nosso tempo, Simone Weil vai ainda mais direto ao questionar a fé dos cristãos. “Se quer saber se uma pessoa acredita em Deus, não se fixe no que ela diz sobre Ele, mas no que ela diz sobre o mundo”. O que tem sido feito dos corpos femininos? Da exploração sob diversas formas até sua eliminação através do alto índice de feminicídio, onde se quer chegar? O que tem sido feito dos corpos das crianças? O que tem sido feito com os corpos dos desempregados, das minorias, das pessoas que existiam sob nossos olhos, mas não os víamos ou reconhecíamos? O que fazemos com a fome de tantos e tantas? Somente a oração por eles não basta. A fome e o sofrimento do pobre acontece no seu corpo.

A categoria teológica do pobre tem lugar de destaque em toda a Bíblia. Pode designar como indigente, como magro, como mendigo, como a pessoa não saciada ou como o homem rebaixado e o aflito. O pobre não se refere apenas a uma condição econômica e social, mas também como uma disposição, uma atitude da alma. Diz respeito tanto às riquezas espirituais da pobreza como remete aos verdadeiros pobres como herdeiros do Reino dos Céus.

Em Israel também existia uma visão do pobre como um caminho de infelicidade que se deveria suportar, como estado desprezível, pois equivocadamente se achava que as riquezas materiais eram a expressão da retribuição divina. Esta ideia está muito presente nos dias atuais na chamada “teologia da prosperidade”. Esta visão não teve nenhum amparo entre os profetas. Estes consideravam a pobreza como decorrente da cobiça dos homens, fruto de uma injustiça. O Deuteronômio institui um conjunto de medidas e atitudes para atenuar o sofrimento dos indigentes. Uma dessas medidas é a prática da esmola como elemento essencial da piedade bíblica.

A Bíblia avança ainda mais indicando o lugar do pobre, pois o clamor deles chega aos ouvidos de Deus, conforme descrito no livro de Jó. As orações ou preces dos perseguidos, dos infelizes, dos aflitos, chegam aos ouvidos de Deus. Os pobres são os humildes também chamados “Pobres de Javé”.

O Messias inaugura de maneira ainda mais radical o lugar teológico dos pobres com as “Bem-Aventuranças” (Mt e Lc), que são os herdeiros privilegiados do Reino dos Céus. E Maria é a imagem mais fiel deste lugar de humildade e serva. O Messias também é pobre. Adverte contra o perigo das riquezas e pede aos Apóstolos que abracem a pobreza efetiva – pobres voluntários. Não é apenas uma atitude espiritual como descrita em “felizes os pobres em espírito”, mas total desapego dos bens. O Papa Francisco tem, por diversas vezes, chamado a atenção dos ministros da Igreja para esta questão. Uma Igreja simples, pobre, onde o que conta não é o carro que se usa ou o apartamento em que mora.

Por fim, a Bíblia junta a questão da pobreza com a atitude da hospitalidade, do acolhimento. No mundo em que vivemos este bem é precário. Como a humanidade atual está tratando o problema dos refugiados? Como os católicos que frequentam missa todos os domingos assumem esta urgente e necessária hospitalidade? Como defendem isso nos diversos ambientes e organizações sociais?

O Dia dos Pobres deveria levar a todos os cristãos e especialmente os católicos a compreenderem que a miséria é uma condição inumana. Não é possível que alguém possa sobreviver com R$ 183,00 por mês! A pobreza nos convoca para uma revolução ética exigindo de todos os setores em que se vive, em que se trabalha, em que se governa, a plena Justiça Social. A pobreza nasce de uma profunda injustiça. Ninguém é pobre porque quer.

Por fim, cabe pensar sobre como celebrar este dia. Na Mensagem, o Papa sugere que este dia sirva para a criação de muitos momentos de encontro e amizade, de solidariedade e ajuda concreta. Por isso, o convite aos pobres e voluntários para participarem juntos da Celebração Eucarística. Fico a imaginar a Igreja recebendo a partir deste dia os pobres que moram nas ruas de nossas cidades, os consumidores de crack segregados em cantos escuros, as crianças que pedem esmolas nos sinais de trânsito, as pessoas refugiadas e escondidas em nossa cidade! Que a oração do Pai Nosso seja ouvida por Deus como expressão concreta da solidariedade e da luta por justiça social. E que se inicie entre nós um movimento onde os “pobres comerão e ficarão saciados”.

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