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Dando passagem às forças díspares

                                                “Quem anda nos trilhos é trem de ferro, sou água que corre entre as pedras: liberdade caça jeito.”                                                                                                                                                   Manoel de Barros

 Meu Deus! A nascente do rio são Francisco secou! O que é isso? A que estas tantas realidades assustadoras nos chamam? Agora no fim de setembro, no Rio de Janeiro, Bruno Latour, antropólogo e filósofo Francês, autor do conhecido livro “Jamais fomos modernos”, apontava a reconstrução da sensibilidade como um caminho para fazer frente às questões que nos são colocadas hoje em dia, como a climática, por exemplo.  Já são muitos os que se dão conta da importância desse cultivo para encontrar rumos e alternativas para a vida tão fortemente tomada de assalto nos quatro cantos do mundo e tão seriamente ameaçada. Mas, se são grandes e sempre desafiantes os problemas que o mundo enfrenta também são surpreendentes os modos que a vida arranja para se preservar e ser cada vez mais vida, apesar. Com certeza é preciso cultivar novas sensibilidades pra perceber as rotas de fuga que a vida cria e seguir por elas, ampliando-as, e dando-lhes ainda mais importância.

As novas sensibilidades talvez nos desconcertem ao nos sugerir parar o que supomos que deve continuar (é preciso descontinuar para continuar, diz Latour); valorizar delicadas iniciativas ao invés de grandes ações; ouvir uma voz destoante ao invés de reforçar o coro tantas vezes cantado; prestar atenção nas inusitadas formas de expressão que as pessoas e grupos e comunidades encontram e não nos bem articulados e enfadonhos discursos que justifiquem o que está instituído e solidificado; acolher o singular e diferente ao invés de massacrá-lo pela padronização e uniformização de modos de ver-agir-viver.

E se falamos dessas sensibilidades para com as diferenças e singularidades é porque os modos capitalistas que nos atravessam como constituidores das nossas subjetividades são por demais impositivos da padronização, uniformização e homogeneização. Padronizam nossos olhos, nosso olfato, nossas papilas gustativas. Padronizam nossos quereres, nossas aspirações, nossos sonhos de felicidade. “Não por acaso a palavra padrão ganhou ares de qualidade: “padrão globo”, “padrão fifa”, ‘padrão primeiro mundo”, etc. Mas apesar de tantos padrões de “qualidade” o mundo vai cada vez mais na direção da desvalorização da vida, do depauperamento da natureza, da deificação do mercado, e da secular indiferença à populações imensas de sofredores (como é o caso sempre atual de muitos países africanos).

Mas se assim se mostra este sistema globalizado – o capitalismo no seu atual estágio de desenvolvimento, poderoso e onipresente – ao mesmo tempo ele não consegue, de todo, contralar a vida. Ela escapa. Brechas e frestas surgem, ela foge e se arranja em modos e jeitos os mais surpreendentes, inusitados e inesperados. Aqueles que se propõem a buscar e favorecer o surgimento de um outro mundo deveriam estar atentos aos veios e filetes por onde ela foge e às formas que ela toma ao fugir. Para isso têm que – como disse Bruno Latour – reconstruir a própria sensibilidade.

E teríamos que nos perguntar: Por que adotamos a mesma dinâmica padronizadora na condução das nossas atividades se almejamos um outro mundo? Por que reproduzimos nas nossas empreitadas e áreas de ação a lógica deste mundo que vai fazendo todo mundo igual? Qual a razão que norteia a convicção de ações padronizadas que dispensa ou ignora o diverso, o estranho, o insipiente, o frágil, o a-normal?

E se a palavra sempre poderá ser um vento-voz da suavidade a rachar o bloco monolítico dos modos estabelecidos, das forças instituídas, junto minha pequena voz neste intento.

É lógico que de um jeito ou outro todos sofremos do “ideal de um MESMO”. É claro que é atraente ver os grupos, os funcionários, as comunidades unidas pelos mesmos modos de ser, de agir, de pensar, de celebrar, de viver. O eu e o mesmo não se assustam, não se estranham, não se questionam. Tudo parece perfeito, as simetrias são valorizadas e as dissimetrias são discretamente colocadas de lado, desprezadas. Ou seja, acredita-se que o OUTRO pode ser aplainado, e que ele só se sentirá bem se for colocado no horizonte da minha identidade e das minhas convicções, e se se converter ao MESMO que norteia meus pensamentos.

Mas, se os laços entre os sujeitos são permitidos e produzidos exatamente pelas suas distancias e heterogeneidades, parece interessante também (não só, mas também) pensar nas comunidades, nos grupos, nas mais variadas iniciativas a partir da mestiçagem, da assimetria, das dobras e das forças díspares.

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