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Arte e Religião num Estado democrático

A apresentação da peça de teatro “Jesus Cristo Superstar” em São Paulo provocou reação de vários grupos religiosos. Para algumas pessoas, a representação de Jesus Cristo através de imagens diferentes daquela em que foi educado nos catecismos da Igreja é uma ameaça à fé, uma blasfêmia. Para outros, é uma profanação, uma heresia. Enfim, estamos diante de mais uma polêmica que envolve a expressão artística de temas religiosos. Dias depois outro tema polêmico foi exibido nos cinemas, o filme Noé, já proibido em alguns países islâmicos. Outros exemplos de filmes que geraram polêmicas: “A última tentação de Cristo”; “O Código Da Vinci”; “Dogma”; “A vida de Brian”.

Gostaria de expor aqui algumas reflexões que podem ajudar as pessoas tanto no seu caminhar de fé como na compreensão da questão envolvendo religião e arte. Há diversos temas que nem sempre são bem aceitos ou aprovados por grupos religiosos e pela própria Igreja. Antes de existir o cinema, muitas expressões artísticas, através da pintura e da escultura de personagens cristãos, tornaram-se objetos de reações violentas. Ainda hoje é possível encontrarmos várias obras renascentistas italianas mutiladas por movimentos reacionários. Vemos agora que não era motivo para tanto furor contra estátuas em que apareciam órgãos sexuais. Não havia e nunca haverá imoralidade nessas expressões artísticas. A estátua imponente de Davi totalmente desnudo em Florença é motivo de grande admiração. A beleza da escultura inibe qualquer reação moralista que por acaso ainda exista.

A arte é expressão do pensamento e a ela não cabe proferir nenhum tipo de verdade sobre a religião. E nem se pode tomar qualquer objeto artístico como se fosse uma verdade ou um dogma de fé. A arte deve servir para levantar alguns questionamentos e reflexões. Por outro lado, uma fé que não suporta estar sujeita a desafios da crítica pode não ser suficientemente forte. Houve um tempo em que a Igreja proibia a pesquisa científica sobre fatos e problemas religiosos. Assim aconteceu com Galileu Galilei, considerado e condenado como herege e nos tempos atuais a mesma Igreja reconhece que errou nesta condenação. A fogueira da inquisição queimou muitos inocentes. A Igreja atual, aberta ao mundo e ao progresso do conhecimento, convoca a pesquisa científica para esclarecer possíveis milagres em vista da canonização de pessoas ou fenômenos considerados complexos. Não há incompatibilidade entre a verdade da fé e a investigação científica. O Papa João Paulo II, na Carta Encíclica Fides et Ratio, afirma que “a fé e a razão são como duas asas que nos conduzem no voo em direção a Deus. Se você tem a fé, mas não tem a razão, a fé é cega, mas se tem a razão e não tem a fé, a razão enlouquece”.

Voltando à questão da expressão artística, as pessoas habituaram-se a ver uma imagem de Jesus que está, na maioria das vezes, mais distante daquele homem que viveu nas terras escaldantes da Galileia. A maior parte das pinturas de Jesus e dos Apóstolos reflete o modelo de homem europeu e não do oriente médio. A Igreja cristã nunca definiu qualquer tipo de imagem como um dogma de fé. O que é objeto da fé é a doutrina transmitida pelos Apóstolos. Seus sucessores, os Bispos, devem ser fiéis a este ensinamento, e não às imagens que foram se construindo ao longo da história.

É interessante observar como as reações referem-se quase sempre à humanização dos personagens religiosos. Esquecemos que um dos mistérios centrais da fé cristã é a humanização de Deus, que se concretiza na Encarnação do Verbo. O encontro de Deus com a humanidade de maneira concreta, histórica, é fenômeno único nas tradições religiosas. Não há nenhuma outra religião que acredita num Deus que se fez homem e habitou entre nós. Somente o Cristianismo traz esta realidade de fé. Emanuel é Deus conosco. Então me vem a questão: por que tememos tanto a humanização do sagrado? Por que queremos tanto que Deus fique fora deste mundo? Vale a pena refletir sobre isso, mas não podemos desviar do tema desta matéria.

O que é dogma de fé é que Jesus Cristo é verdadeiro Deus e verdadeiro homem, menos no pecado. São duas naturezas: divina e humana. Como os Evangelhos não são livros de biografia, mas expressões de fé da comunidade cristã, as artes em geral encontram ali um campo fértil para dar asas à imaginação. Isso é pecado? Não! Isso ameaça a minha fé? Também não. Não podemos dogmatizar imagens ou descrições humanas de Jesus. Há uma forte tendência nas pessoas em retirar as raízes humanas não apenas dos personagens religiosos, mas também de artistas e líderes políticos. Há muita mistificação de personagens históricos. Muitas vezes, temos a necessidade de fazer uma séria investigação sobre o que realmente é histórico ou pura mistificação, superposição imaginativa.

Reconhecemos que em alguns momentos históricos apareceram obras que objetivavam outros fins não artísticos. Servia-se da arte para semear um conjunto de ideias que denegriam a religião, tornando-a motivo de chacota. Durante o Iluminismo no século XVIII isso foi muito comum. Foi nessa época que os padres da Companhia de Jesus foram expulsos do Brasil como bandidos, acorrentados e postos nos navios rumo ao Vaticano! Neste período, por exemplo, algumas obras de arte perdiam a oportunidade para discutir temas e descambavam para ações que visavam a destruição da fé propriamente dita. Era um verdadeiro iconoclasmo. Mesmo que isso hoje seja ainda possível, não me parece sensata a ideia de uma censura.

Na questão da peça “Jesus Cristo Superstar”, as pessoas que se sentiram ofendidas tiveram o direito de se manifestar. Isso faz parte da experiência de liberdade que o mundo moderno conquistou. O Estado laico deve garantir este direito; contudo, não pode exercer o papel de censor. Alegar que a fé esteja sendo atacada, me parece admitir uma redução desta mesma fé a aspectos puramente estéticos. As raízes da fé necessitam estar fincadas em terreno mais forte, mais sólido, mais seguro, numa rocha e não na areia movediça das imagens. A fé não pode permanecer apenas na dimensão da sensibilidade, na superfície. As verdades centrais da fé cristã estão resumidas no Credo que se diz em todas as Celebrações Eucarísticas. Por isso, chama-se “Profissão de Fé”. Não se trata de nenhuma forma de oração de súplica ou de louvor, mas sim de juramento sobre o que se acredita. Este juramento é essencial para a continuação da liturgia eucarística. Do contrário, como celebrar se não se acredita no Mistério ali presente feito “Corpo e Sangue”?

Estas questões nos remetem a uma constatação: o maior desafio para a humanidade no presente e no futuro é o convívio num mundo plural. Há muitas outras expressões de fé além da cristã. Por isso, torna-se imperioso que um Estado laico garanta sempre a liberdade de manifestação, acompanhada do respeito e da responsabilidade. Sem querer ser adivinho, penso que se houver alguma guerra mundial no futuro ela terá como pano de fundo as questões religiosas e culturais. Aqueles que se sentirem incomodados com alguma obra de arte, especialmente no cinema e no teatro, têm a possibilidade tanto de se manifestar como de não assistir a estes espetáculos. O Estado deve ser o defensor desta possibilidade.

Por outro lado, não se pode transportar para a arte a normatividade da religião. Se isso acontecer, a arte fica a serviço da religião, e perde sua dinâmica essencial de existir. Religião e arte são dois campos da experiência humana que precisam ser defendidos em suas respectivas autonomias de agir e pensar. O Estado democrático deve ser sempre o baluarte em defesa destas duas esferas da cultura. É num contexto como este que se percebe a importância de um Estado laico. Se assim não fosse, logo poderíamos ter alguma forma de censura ou mesmo de interdição das apresentações. O Estado laico é a garantia da convivência humana num contexto plural. O Estado laico se abstém de confessar qualquer fé religiosa e também de se posicionar a favor de alguma crença em particular. Quando o Estado é apropriado por algum grupo particular ele perde sua razão de ser como Estado democrático de direito. Num mundo cada vez mais plural é através deste Estado que será possível uma sociedade em que seja garantido o direito à diferença e o respeito à diversidade cultural e religiosa.

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