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A Síndrome do filho único, do filho preferido e do filho que pretende ensinar a Deus como se comportar

Aos discípulos que querem aprender a rezar, Jesus surpreende todos ao exclamar “Pai Nosso…”.

“Pai” é o ponto de partida da oração cristã. Esta é autêntica quando, feitos crianças, mergulhamos no abraço paterno de Deus e nos abandonamos n´Ele com absoluta confiança.

“Nosso” é da conta do clima de família de nossa oração, mesmo quando o diálogo é pessoal. A oração recebe o selo de qualidade somente quando, graças à experiência da alegria de sermos reconhecidos por Deus como filhos amados, sentimos o prazer de fazermos parte de uma grande família onde todos somos irmãos e irmãs sem exclusões. Em prática, ao encontrar Deus Pai, achamos nossa família e, tendo presente o jeito de Deus exercer Sua paternidade, é um ato de desrespeito com a Sua pessoa renegar a família humana ou reduzi-la a um grupo de elite.

Às vezes fico tentado de me considerar filho único, por isso não uso mais o plural. Omito o “nós” e o “nosso” e opto pelo singular limitando-me a rezar por mim mesmo, pelos meus problemas, pela minha família e pelas minhas necessidades. Quero atenção exclusiva do Pai.

Outras vezes, com a lista dos méritos na ponta da língua, pretendo ter um tratamento preferencial. “Afinal das contas, sou melhor de que tantos outros. Fiz tudo por merecer!”

Enfim, acabo aposentando o Pai para tomar Seu lugar. Afinal “Deus está velho caduco”, “ficou mole”, “com essa conversa de misericórdia está deixando de se vingar daqueles que agem errado”. “Deus precisa me ouvir, pois eu sei o que precisa fazer”. Com pinta de arrogante, julgo, condeno, excluo… Sonho com uma família só de eleitos, de portas fechadas para “as ovelhas perdidas”, “as mulheres surpreendidas em flagrante adultério”, os “filhos pródigos” e “os carrascos que praticam violência contra o Inocente”. Afinal das contas, todos estes “perdidos da silva” não tem mais direito a nada. “Para eles e com eles não têm mais jeito”.

Esqueço-me que o Pai de Jesus não espera a ovelha perdida voltar, mas vai atrás e a traz de volta, não a arrastando em correntes para submetê-la a linchamento público, mas carregando-a com carinho no seu colo. O Pai de Jesus nunca perde de vista o filho que foi embora de casa e, quando este decide voltar só por interesse, corre ao seu encontro, o abraça e lhe devolve todos os direitos de filho.

O Pai de Jesus não exige a arrependimento da mulher adúltera como condição prévia para evitar seu apedrejamento. Coloca-a a salvo mesmo sem ter certeza que ela esteja disposta a mudar de vida. Só depois, quando todos seus acusadores vão embora envergonhados, Ele a convida a abandonar o pecado, mostrando que a mudança é possível como consequência de um ato de amor. Enfim, o Pai de Jesus não opta pela mesma crueldade de seus carrascos, mas perdoa aqueles que acabam com Sua vida pendurando-o na Cruz e, para completar, dirige o olhar para o ”bandido” pendurado na cruz ao lado e o convida a ir morar em Sua casa.

Eu preciso parar de brincar de ser cristão e de reduzir o Evangelho a um livro de banal auto-ajuda. Preciso aprender a encarar o Evangelho como narração fiel do jeito paterno e materno de Deus assim como foi revelado por Jesus. O Evangelho é o marco regulatório de minha vida que não posso manipular segundo meus interesses, mas exige minha adesão total. “É a Palavra viva, eficaz, mais penetrante do que uma espada de dois gumes e atinge até a divisão da alma e do corpo, das juntas e das medulas, e discerne os pensamentos e intenções do coração” (Heb 4,2).

É bom coar nossos pensamentos, palavras e ações pelo filtro do Evangelho para jogar fora as escórias que de cristão não tem mesmo nada e tomar nosso lugar de filhos/as, irmãos/irmãs que amados pelo pai se amam entre eles qualquer que seja a situação.

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