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A religião e os símbolos religiosos

Tem causado grande repercussão e maneira crescente a prática de destruição ou profanação de símbolos religiosos notadamente imagens e espaços sagrados. Volta e meia acontecem fatos desagradáveis. Pessoas que se dizem cristãs quebrando imagens de santos das Igrejas Católicas ou praticando atos de intolerância com as religiões afro-brasileiras. Na história tivemos marcos que deixaram grandes feridas na humanidade como a questão iconoclasta que provocou uma verdadeira guerra com centenas de mortos ou como durante a Revolução Francesa com a burguesia vitoriosa transformando as Catedrais em espaço para guardar os animais durante o inverno, como se fossem currais.

A prática de intolerância religiosa sempre esteve presente na história do cristianismo. Não está correto identificar isto com a ação de Jesus diante dos vendilhões do Tempo de Jerusalém. É preciso frisar que também os cristãos ao longo da história fizeram inúmeros movimentos numa espécie de cruzada para a destruição dos símbolos religiosos das pessoas não cristãs. No Brasil, não podemos ignorar como ao longo de 500 anos após a chegada dos portugueses no território brasileiro as ações empreendidas pelos donatários, pelos bandeirantes, pelos colonizadores, pelos senhores de engenho, contra os indígenas e contra os negros africanos. A intolerância religiosa durante o período conhecido como “padroado” português” não pode ser esquecida ou ignorada pelos católicos e cristãos dos tempos atuais.

Se retrocedermos à Idade Média a situação também é muito triste quando se lê o modo de proceder dos cruzados com as famosas “guerras de cruzadas”. Ao mesmo tempo, do lado oposto estavam os muçulmanos que também adotavam o mesmo processo de destruição do outro, e domínio de seus territórios. Ordens militares foram criadas para o serviço “cristão”. Mas em confronto com os Evangelhos de Jesus Cristo este serviço não era bem cristão. Era o jogo da cruz e da espada. Ou crê ou morre! Era o movimento pela conversão dos nãos cristãos de maneira violenta e não amorosa como está descrito nos Evangelhos.

No caso recente acontecido no início de julho na Serra (ES) quando uma pessoa invadiu a Igreja paróquia gritando que os “católicos são todos filhos do demônio e que não vão adorar imagens nunca mais” ameaçando aquelas pessoas presentes à destruição dizendo que “na próxima eu vou destruir vocês”, “criaturas abomináveis e desprezíveis”, “filhos do demônio”, algumas reflexões poderíamos tecer sobre especificamente esta prática.

Em primeiro lugar chamou-me a atenção a reação de algumas pessoas nas redes sociais dizendo que “o inimigo furioso se manifestou” convocando a Deus com a intercessão da Virgem Maria, São Miguel Arcanjo e todas as milícias celestes” para dispersarem seus inimigos e “fujam de sua face todos os que o odeiam”. Esta forma de expressão ainda é devedora de uma Igreja em pé de guerra, pois convocar as milícias celestes é equivalente aos batalhões militares dos céus. Ainda somos devedores de um cristianismo de cunho medieval. O não católico é apresentado como inimigo que deve ser destruído pelas milícias celestes e afastado da face de Deus. Mas que Deus é esse que professamos que aceita que sejam afugentados de sua frente os povos que não professam a fé cristã católica? Parece-nos que o Evangelho de Jesus Cristo segue outra direção. Estaríamos assim na contramão evangélica.

Entre os reformadores do século XVI e XVII a questão das imagens é tratada com muito equilíbrio e sensatez. A ênfase na Sagrada Escritura é o pressuposto básico para se analisar a questão. O centro deve ser a Palavra de Deus. Qualquer imagem que retira de Deus Trino desta centralidade é motivo para admoestação. Lutero assim dizia: “Porém, imagens para memoriais e testemunho, como crucifixos e imagens de santos, são para ser tolerados… E não são apenas para ser tolerados, mas por causa do memorial e testemunho eles são louváveis e honrados…”. E mais claro ainda: “nós não pedimos mais do que gentileza em considerar um crucifixo ou a imagem de um santo, como testemunha, para a lembrança, como um sinal”. Os reformadores rejeitavam as imagens em razão dos abusos decorrentes da cristandade medieval. As imagens inspiradas pela Escritura e por histórias edificantes sempre lhes pareceram úteis, não tendo nada de semelhante com a questão iconoclasta dos séculos VI a IX.

A Igreja inseriu estes símbolos religiosos desde o início como forma de catequizar o povo analfabeto. É bom nunca esquecer que o cristianismo acolhe imediatamente as pessoas marginalizadas da sociedade judaica e romana. Dizia São João Damasceno: “O que a Bíblia é para os que sabem ler, a imagem o é para os iletrados”. As catedrais medievais eram grande recurso na educação da fé cristã para o povo pobre e analfabeto. Os vitrais e pinturas são magníficos. Na Capela Sistina em Roma a pintura do Juízo Final é magnífica mostrando o caminho que conduz ao céu onde cada pessoa ajuda o outro no processo de ascensão e o caminho do inferno onde cada um quer chegar primeiro por seus próprios méritos. Que aula, que pregação magnífica escrita sob a forma de pintura! Novamente São João Damasceno: “O desenho mudo sabe falar sobre as paredes das igrejas e ajuda grandemente”.

Nos dias atuais a pergunta fundamental é a seguinte: quais são os ídolos que tomam o lugar de Deus desviando os olhos da verdade? Tratar da idolatria hoje da mesma forma em que os textos bíblicos retratam como tal fazendo referência às imagens dos ídolos de ouro e prata é reproduzir uma ideologia de afastamento da verdade. O grande ídolo dos tempos modernos não é a imagem de algum ente religioso. Os grandes ídolos de hoje são o dinheiro, o status social, o poder, o sexo, a carreira, o domínio; esses e tantos outros afastam os homens da verdade e da justiça; afastam os homens de Deus. Até quando alguns pregadores religiosos vão insistir numa concepção equivocada do que vem a ser idolatria no mundo atual retrocedendo a tempos antigos antes de Cristo na identificação da idolatria? Os ídolos de hoje transformam os homens em plateias impedindo-os de agir diante das injustiças e corrupções promovidas pelos poderes temporais e espirituais. Sim. Há muitas lideranças religiosas que são promotores de idolatria na medida em que alienam seus fiéis diante da realidade adorada pelos donos do capital.

O verdadeiro inimigo não é o pobre coitado que entrou na Igreja e num ato de loucura partiu para a destruição de imagens de Maria e de Santos. Esta pessoa não pode ser considerada inimiga. O verdadeiro Deus não disporá de nenhum movimento para castigá-lo. O Deus amor que é vivido e pregado nas Igrejas cristãs não precisa de “milícias” celestes. A verdadeira milícia a ser convocada é feita por cristãos que lutam por justiça e verdade.

Por outro lado, pregar para que se desenvolva no espaço sagrado uma verdadeira histeria emocional, com choro, balançar dos corpos, com elevação de voz, condenando e convocando para uma cruzada contra outras pessoas que veneram a lembrança de Maria e dos Santos, produz uma pseudo-profundidade espiritual, contrária à convocação de Jesus Cristo para que nos libertemos do cativeiro da mentira e nos conduzamos ao culto verdadeiro (Jo 8, 36; Rm 12,1).

Portanto, não se pode reproduzir nos meios católicos a mesma prática adotada em tempos passados com um cruzadismo violento e destruidor dos não cristãos. Nem se pode convocar Deus para enviar suas milícias para combater pobres mal conduzidos em seus templos pelos verdadeiros “pregadores de idolatria”. O que atrai as pessoas nos tempos atuais não são os bezerros de ouro ou prata, como se fossem equivalentes às imagens identificadas pelos pregadores religiosos mal formados teologicamente.

As orientações emanadas do Concílio de Nicéia II em 787 nos parecem suficientes. As imagens veneráveis e santas devem ser expostas nas Igrejas, nas casas, pois quanto mais os fiéis contemplarem essas representações, mais serão levados a recordar-se dos modelos originais, voltando-se para eles numa veneração respeitosa, sem que isto seja adoração, segundo a nossa fé. Os abusos devem ser corrigidos por todos. O erro cometido durante a cristandade medieval não é motivo para se desrespeitar qualquer espaço sagrado. O desrespeito e a intolerância devem ser banidos do meio cristão em todos os sentidos e espaços, inclusive dos próprios cristãos em relação às outras religiões. Quanto mais os cristãos empunharem modelos vividos de pessoas que viveram profeticamente neste mundo, viveram santamente num mundo confuso e pecaminoso, mais serão testemunhas do que viram e ouviram dos Apóstolos. Ser cristão não é convocar milícia celeste para combater o inimigo que é um pobre coitado, mas responsabilizar-se pela implantação da justiça no mundo. A grande milícia a ser pedida a Deus se refere à reunião de homens e mulheres na luta pela implantação de uma sociedade ética, transparente, justa e solidária.

 

Edebrande Cavalieri

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