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A morte do padre Libânio

O teólogo e suas contribuições para a Igreja

A notícia da morte do Padre João Batista Libânio, ocorrida em 30 de janeiro deste ano, trouxe-me um sentimento reflexivo sobre o sentido de um teólogo na Igreja. O que representa a morte de um teólogo? Que papel ele desempenha na Igreja? Por que precisamos de teólogos? Estas são algumas questões que povoam a minha mente neste momento. Como tantas pessoas pelo mundo afora, muito ouvi o padre Libânio e li seus belos textos de teologia.

Para a Igreja da Arquidiocese de Vitória ele sempre representou uma presença viva e motivadora de nossa caminhada, através de diversas assessorias de encontros, palestras, assembléias arquidiocesanas e I Sínodo. E morreu pregando em um retiro, rezando e refletindo com o Povo de Deus. Poderia escrever uma biografia com cunho mais saudosista. Mas acho que, olhando o conjunto da obra deste companheiro nosso, seu desejo extrapola qualquer sentimento de exclusividade em sua morte, pois a sua teologia continuará entre nós produzindo muitos frutos, além dela mesma. E aqui surge um primeiro dado reflexivo.

A teologia não vive ou não pode ser reduzida a uma produção teórica que se justifica por si mesma. Ela estará sempre na perspectiva de um serviço, de uma diaconia da Palavra, de um servir à Igreja. Uma teologia que não serve à fé, não serve para nada. É pura elucubração mental. É narcisismo intelectual. A reflexão teológica verdadeira nutre permanentemente a fé da Igreja, transcendendo os tempos e os lugares. Não é uma reflexão para um contexto meramente particular. Não é um estudo de caso, dizem os pesquisadores. Deste modo, vejo na vasta produção do padre Libânio esta grande diaconia da inteligência, o grande serviço ministerial para que a fé da Igreja tenha sempre a segurança nos caminhos a serem trilhados pelo povo. E aqui aparece outra característica da reflexão teológica.

Ela não se concretiza num chão individual, ou particular. Não é produção de gabinete de trabalho de professor. Sempre esta reflexão estará enraizada na história de um povo, na caminhada deste mesmo povo. Não é um comando teórico como se fosse um plano de governo. É um balbuciar permanente ao lado do povo, sem impor, sem discriminar, sem condenar. A teologia é sempre acolhedora da vida do povo. Sua primeira atitude metodológica é a da escuta do povo. Como foi bom ter o padre Libânio no I Sínodo Arquidiocesano de Vitória! Ali estava ao lado de outro teólogo, o padre Geraldo De Mori, não para ensinarem, mas para escutarem o povo desta Igreja e confrontar com a Palavra de Deus, articulando teoricamente. O sofrimento do povo, as lágrimas do povo, as dores do povo, percorrem as veias do teólogo. Sem isso, a reflexão teológica não difere de tantas outras reflexões; vira mero projeto profissional, muitas vezes, apenas pessoal. Teologia que não escuta o povo vira idiossincrasias, vira ideologia, vira letra morta. Assim, podemos afirmar com segurança que ela não se confunde com as reflexões que os filósofos elaboraram ao longo da história. A reflexão filosófica sobre Deus é um discurso sobre Deus, uma teodiceia, mas não teologia. Pode até servir para a abertura para Deus, mas não é teologia enquanto ministério a serviço da fé. Alguns doutores da Igreja ao longo da história conseguiram aproximar muito estas duas ordens da inteligência: da razão e da fé; é o caso, por exemplo, de Santo Tomás de Aquino.

Por fim, parece-me que o maior ensinamento do Padre Libânio não está propriamente em seus livros, mas na sua vida, no seu sacerdócio, na sua humildade de servir, no seu carinho acolhedor que transparecia em todo seu corpo. Não era discurso sobre acolhimento. Era sangue, respiração, olhar, movimento, corpo, alma, acolhedores. Sua teologia se fez concreta no próprio corpo.

Sabia ouvir, escutar, ponderar. Jamais submeteu as pessoas ao crivo do tribunal teórico, tanto presente entre algumas pessoas que se dizem teólogas. Jamais caminhou na perspectiva do juízo do certo e do errado, do verdadeiro e do falso, da heresia e da verdade. É interessante verificar que sempre que a Igreja caminhou na relação com o povo como se estivesse num tribunal que julga (condena ou absolve), deu os piores exemplos para a vida cristã, sendo motivo de tantos pedidos de desculpas e perdão.  A teologia vivida pelo padre Libânio está situada na mesma linha e na mesma postura que vem sendo implementada pelo papa Francisco, de uma Igreja simples, pobre, acolhedora, aberta ao diálogo.

Em sua obra “Qual o futuro do cristianismo?” Responde prontamente: “A chance maior do Cristianismo não virá de seu conteúdo doutrinal – ele mesmo maravilhoso -, nem da eficiência organizativa das atuais formas de Igreja, mas das ações e da maneira como as comunidades viverão os valores do futuro da humanidade: solidariedade, paz, convivialidade humana, esperança nas tribulações, fé-confiança no ser humano malgrado as terríveis decepções e perversidades” (p. 135). Meu sentimento pela morte do padre Libânio é que este ensinamento permaneça entre nós e seja continuado por todos aqueles que usufruem de um lugar no ensino teológico. Ensinar teologia é muito diferente de qualquer outro ensino. Obrigado, padre Libânio!

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