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A menina que salvou o futuro

*Por Maria Clara Bingemer

As águas subiam e as pessoas fugiam. Entravam em barcos improvisados, deixando para trás o que fora construído ao longo de toda uma vida. Em Várzea do Una, lugar onde o rio se encontra com o mar no município de São José da Coroa Grande, Zona da Mata Sul de Pernambuco, o domingo, dia do Senhor, foi de medo e desespero. A chuva intensa chegou e a água subiu sem parar.

Rivânia, de oito anos, tremeu de medo e se dispôs a partir. Foi quando a avó, Maria Ivânia, lhe disse que entrasse na casa alagada e salvasse o mais importante. A menina não titubeou. Agarrou a mochila que levava para a escola, com livros e material escolar, e subiu na embarcação. Ajoelhou-se e rezou, acompanhada pelos avós e o que considera mais precioso: seus livros.

A foto de Rivânia ajoelhada e abraçada à mochila onde guardava seu tesouro chama a atenção. Como uma criança de oito anos não prefere levar consigo roupas ou brinquedos, ou a boneca predileta, ou fotos de pessoas queridas. Por que livros? Por que o mais importante eram os livros?

A resposta da menina chega a ser mais significativa que seu gesto. Perguntada sobre por que os livros precisavam ser salvos da enchente, respondeu: “Porque eles são o meu futuro.”

Rivânia ainda não sabe ler, mas já está na escola e sabe que a leitura é o único caminho para o futuro de uma vida com sentido. E persegue esse futuro que desde que nasceu parece tão longínquo à sua vida de pobreza, criada pelos avós, neta de um pescador que perdeu a rede, meio de vida, na enchente. Ela intui que o meio de trazer esse futuro para o terreno das possibilidades é o estudo. E a ele se agarra com unhas e dentes.

O gesto da menina e sua foto na embarcação abraçada aos livros chamou a atenção das autoridades. A família recebeu a visita do governador do estado, que foi ao município de Várzea do Una pela primeira vez. Atraiu também os olhares de outros pontos do país e do exterior. De todos os lugares chegaram livros para Rivânia, dos quais muitos foram doados a sua escola.

O espanto maravilhado de todos é como uma menina analfabeta e pobre pode realizar um gesto de tal alcance e proferir uma sentença de tamanha sabedoria: salvar o mais importante é salvar os livros, que são o futuro. A família de Rivânia recebeu ajuda e a comunidade onde vivem também.

Enquanto isso, em nosso país, outras meninas e meninos como ela são conquistados por outras coisas e trilham outros caminhos: as drogas, a mendicância, a situação de rua. E as autoridades estão preocupadas em projetos eleitoreiros de curto prazo e não priorizam a educação em seus investimentos.

Menos mal que existem os pequenos profetas que não deixam morrer a esperança. Enquanto existirem crianças como Rivânia, que salvam livros porque sabem que assim garantem o futuro seu e de muitos, é sinal que não morreu a possibilidade de se construir uma nação digna. É sinal também de que a vocação do ser humano sobre a terra leva em si a centelha do Criador. Por isso, por pior que seja a situação em que se encontre, sobreviverá a governos iníquos e negligências criminosas.

Testemunha e guardiã do futuro, a pequena Rivânia abraçada a sua mochila cheia de livros é uma inspiração e uma luz para todos aqueles e aquelas que creem que a educação é a prioridade número um de um povo que se move por desejos, projetos e utopias, e não por rasteiras e iníquas ambições.

Publicado em Dom Total em 13 de junho de 2017.

* Teóloga, professora e decana do Centro de Teologia e Ciências Humanas da PUC-Rio. É autora de diversos livros, entre eles, ¿Un rostro para Dios?, de 2008, e A globalização e os jesuítas, de 2007. Escreveu também vários artigos no campo da Teologia.

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