buscar
por

A mais importante e bonita construção

                                                                                 “Por que uma mesa ou uma casa são objetos de arte,                                                                                                                   mas nossas vidas não?”. Foucault 

Em tuas horas, ó outubro, os sentimentos que me aconselham são bons, as memórias que trazes se arrumam em agradáveis ondas aqui pela minha mente. Outubro, tempo bonito que se desdobra enquanto viajamos rodeando uma estrela, verão antecipado, mais luminoso de luzes que não ofendem, menos encalorado de calores que incomodam. Outubro… enfim… mês para dizer:

Viver! Viver é bom.

Mas se viver é bom, melhor ainda é viver e dizer SIM. Sim ao devir, ao que aconteceu, ao destino, às mudanças, aos acasos, às danças dos acontecimentos. Vida sempre outra a cada instante, sempre desafiante a cada respiro. Ah, mas ainda mais viver é bom quando nos empenhamos, na oficina das horas e dos dias, em fazer da própria existência uma obra, a mais importante. Se obra de Deus ela é no projeto e no sonho, do mesmo modo obra de mim mesmo poderá ser na execução.

Infelizmente, mais do que pelas mãos daqueles que a detém, a vida tem sido obra dos sistemas que dominam o mundo. Ela tem sido vampirizada e moldada pelos fazedores de dinheiro. Temos uma chance, no entanto: contrapor-nos a isso. A chance mais precisamente consiste em decidir ser o artífice da própria existência (o que não é fácil, não impossível, todavia), procurando fazer dela uma obra singular, diferenciada, especial (assim como pensou Deus).

Uma obra de arte.

Este tema foi caro a Nietzsche, a Foucault. Este empreendimento tem sido importante para muitos. Mas são numericamente maiores os que ainda querem um lugar no mundo e diante das pessoas pelo que fizeram (lugar que de qualquer modo será pequeno), pelos bens que acumularam, pelo sucesso que alcançaram, pela fama que angariaram. Mas os outros querem viver a parcela de eternidade que lhes foi reservada no tempo investindo no único e absoluto dom, a vida, reverenciando-a, marcando-a com as linhas das próprias mãos, atuando nela como artistas abnegados, transformando-a em beleza para si e para o mundo. Uma boa obra.

Obra que é arte de acreditar em possibilidades, variadas e surpreendentes, sempre. Arte que, a despeito de qualquer coisa grandiosa que fizermos ou tivermos, prevalecerá como a arte que se espera de um ser humano, a de fazer da própria vida a construção mais valorosa, dando estilo ao caráter, tomando a bondade como gesto de todos os dias, pondo-se sempre em análise pelo abandono das durezas, apropriando-se do que aconteceu, desacostumando os pensamentos das mesmas palavras e respostas às indagações das realidades…  Esses honrarão a linhagem divina a que pertencem pelo investimento paciente e cotidiano na própria vida, elegendo-a a construção mais importante, sempre inacabada, a construção do palácio das salas mais acolhedoras, do templo das liturgias mais agradáveis a Deus.

COMENTÁRIOS