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A família eclesial em diálogo sobre as famílias hoje

“Cristo quis que a sua Igreja fosse uma casa com a porta sempre aberta na acolhida, sem excluir ninguém.” Essa é a principal mensagem que os bispos, padres, religiosos e religiosas, leigos e leigas reunidos entre os dias 5 e 19 de outubro na III Assembleia Geral Extraordinária do Sínodo dos Bispos quiseram deixar para a Igreja do mundo inteiro. Como sinal do “caminhar juntos” (syn-odos) de toda a Igreja, o Papa Francisco convocou os quase 200 participantes do Sínodo ao Vaticano, para debater sobre Os desafios pastorais sobre a família no contexto da evangelização. Os membros do Sínodo, assim, puderam trazer em pauta as realidades e as problemáticas da família em cada Igreja local. Por isso, o encontro foi “extraordinário” não só no nome: entre os seus debates, destacaram-se alguns pontos que nos impulsionam na vivência e na prática pastoral em nossas dioceses, paróquias e comunidades locais.

 Franqueza

 Logo na abertura do Sínodo, o papa pediu a todos os participantes que falassem de modo claro. Diante de uma temática complexa como a família hoje, não havia nada a se deixar de lado ou a esconder por temor da reação do papa ou de outros. “Falar com parrésia (franqueza) e ouvir com humildade” foram as condições indicadas pelo pontífice, pois a Igreja não é monolítica e enrijecida, mas “poliédrica” (cf. Evangelii gaudium). No discurso de encerramento, o papa saudou as “discussões animadas” que ocorreram no Sínodo, por serem “repletas de fé, de zelo pastoral e doutrinal, de sabedoria, de franqueza, de coragem e de parrésia”. Cabe questionar: é assim também nas nossas comunidades?

 Transparência

 No encerramento do Sínodo, a Relatio Synodi[1], o relatório final de todos os debates, escrito por uma comissão de padres sinodais, foi levado à assembleia para ser votado. A grande maioria dos parágrafos obteve uma aprovação quase unânime, mas três deles obtiveram uma maioria simples e, por isso, foram rejeitados: os números 52 e 53 (sobre o acesso dos divorciados em segunda união aos sacramentos da Penitência e da Eucaristia) e 55 (sobre a atenção pastoral às pessoas homossexuais)

Como sinal de extrema transparência, o Papa Francisco decidiu não só publicar imediatamente o texto aprovado, mas também os parágrafos que não alcançaram a maioria dos votos e mostram as divergências de opinião entre os padres sinodais. E mais: pediu que se divulgasse ainda a lista com o número de votos a favor e contra, deixando bem claras essas discordâncias sobre temas polêmicos que requerem mais reflexão e discernimento. Esta é a sinodalidade para Francisco: a Igreja caminha em unidade na diversidade. Como tal transparência pode repercutir nos diversos âmbitos das nossas comunidades?

 Abertura ao novo

 Como alguns padres sinodais apontaram, se fosse para repetir as mesmas coisas de sempre, o papa não teria convocado um Sínodo extraordinário sobre a família. Se foi convocado, é porque as respostas de sempre não são suficientes para as perguntas de hoje. E Deus “não tem medo das novidades!”, disse o papa na missa de encerramento do Sínodo. “Continuamente Ele nos surpreende, abrindo-nos e conduzindo-nos a vias impensadas”, afirmou.

Além da família tradicional – homem e mulher unidos pelo sacramento do matrimônio e abertos à vida dos filhos –, com suas “luzes e sombras”, existem também novas configurações familiares (casais divorciados, famílias monoparentais, casais homossexuais etc.) que demandam da Igreja vias até agora “impensadas”, talvez. E a Igreja de Francisco “tem as portas escancaradas para receber os necessitados, os arrependidos, e não só os justos ou aqueles que acreditam ser perfeitos”, como disse o papa no discurso de conclusão. Como lidamos em nossas comunidades com as “surpresas” e as “novidades” de Deus?

 Participação de toda a Igreja

 Por fim, o debate sinodal não se restringe aos clérigos, religiosos e religiosas, leigos e leigas convocados ao Vaticano. Envolve também todas as Igrejas particulares, nas suas mais diversas dimensões, e também cada fiel em particular, independentemente da sua vocação e situação eclesial. Encerrado este primeiro Sínodo, chegou a hora de cada católico/a participar e “pressionar”, como disse um dos padres sinodais. Só assim poderão ser encontrados os “caminhos de verdade e de misericórdia para todos”, com o “envolvimento de todo o povo de Deus sob a ação do Espírito Santo, olhando para o modelo da Santa Família” (Relatio Synodi, n. 62).

Como promover essa participação, inclusive em termos de reflexão e estudo sobre a Relatio Synodi, nas nossas comunidades? Pois o debate segue aberto até o Sínodo de 2015, voltado, desta vez, à vocação e à missão da família na Igreja e no mundo contemporâneo. Só então é que o Papa Francisco publicará a sua Exortação Apostólica, indicando uma nova e renovada pastoral familiar para a Igreja hoje – contando também com a nossa participação.

                                                                                      * * *

Sendo esta a minha primeira contribuição neste espaço, gostaria, desde já, de agradecer pela confiança de Dom Luiz Mancilha Vilela e de toda a equipe responsável, especialmente de Maria da Luz Fernandes. Junto com os leitores e as leitoras, espero poder contribuir aqui com algumas reflexões sobre a vida e a missão da Igreja hoje, na companhia do Papa Francisco, de “portas abertas” ao mundo e à sociedade em que vivemos.

 

[1] Disponível, em italiano, em http://goo.gl/r0OIfV.

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Moisés Sbardelotto

Moisés Sbardelotto é leigo casado, jornalista e doutorando em Ciências da Comunicação pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos). É autor de “E o Verbo se fez bit: A comunicação e a experiência religiosas na internet” (Ed. Santuário, 2012) e membro da Comissão Especial para o Diretório de Comunicação para a Igreja no Brasil, da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). E-mail: m.sbar@yahoo.com.br

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