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A construção de grandes templos

Vendo os noticiários sobre a inauguração de um mega templo da Igreja Universal em São Paulo, algumas questões se apresentam para a análise. Não é nossa intenção assumir uma postura destrutiva desta imagem, uma iconoclastia, mas sim de situar na própria história o significado e a presença dos grandes templos religiosos.

A arquitetura, de uma forma geral, carrega consigo sempre uma visão de homem, de mundo e do próprio sagrado quando se refere às diversas e diferentes experiências religiosas. Ela serve tanto para a comunicação de algo como para formar a própria sociedade na qual está inserida. Somos educados desde o início da vida pelas paredes que formam nossa casa, nossa escola e nossa Igreja.

Em relação ao fato noticiado, é significativa, por exemplo, a denominação de “Templo de Salomão” bem como sua construção com pedras vindas de Israel. Por que Salomão? Qual o sentido da grandiosidade do templo? Por que se retomam tantos símbolos religiosos do judeu-cristianismo antigo? Que função cumpre tanta grandiosidade no imaginário das pessoas fiéis? Que tipo de sociedade pretende formar?

Muitas outras questões podem ser feitas, mas gostaria de refletir um pouco sobre este fenômeno – a retomada na atualidade da construção de grandes templos e até castelos para abrigo de religiosos. Não focalizaremos uma denominação religiosa específica. Queremos apenas trazer algumas considerações que permitam compreender um pouco este fenômeno. Nem sempre a construção de um grande templo significa o crescimento do número de fiéis ou incremento da fé; contudo, sua grandiosidade pode contribuir em muito no papel de marketing religioso e de formação do povo.

A história do Cristianismo apresenta um painel de arquitetura com grande variedade de estilos, bem como tamanho dos templos. Os primeiros locais de culto, em épocas de perseguições, foram as catacumbas ou cemitérios subterrâneos. Ali teve início um costume religioso cristão fundamental. Sobre a sepultura dos mártires cresceu o hábito de celebrar a Eucaristia. Esta prática acabou permanecendo até os dias atuais com a presença das Pedras d’Aras que contém relíquias dos mártires. Os locais públicos para oração e celebração foram destruídos ou tomados pelo Estado Romano. Com o final das perseguições no século IV, na época do Imperador Constantino, os cristãos passaram a receber de volta os templos confiscados e tiveram inclusive o apoio do Império para a construção de novos. As celebrações abandonaram as catacumbas e passaram a ser desenvolvidas nas Igrejas cada vez maiores. A partir de agora, século IV, o Cristianismo é a religião do Estado Romano; portanto, os templos devem ter lugar de destaque no cenário urbano. Também são expressão do poder imperial.

Com o advento da Idade Média, vai se constituindo uma grande Cristandade na Europa. Em termos de arquitetura religiosa, a liberdade concedida por Constantino repercutirá na construção de Igrejas com estilo românico cuja base fica sobre o alicerce e todo o peso se apoia nas paredes largas. Estamos diante de um estilo horizontal de arquitetura com pouca luz em seu interior. A Cristandade irá provocar uma revolução no estilo arquitetônico. Trata-se de uma época que deixará marcas profundas na religião cristã.

No século XI, surgem as primeiras obras de arquitetura de estilo gótico no norte da França e logo se espalha pela Itália, Inglaterra, Espanha, Alemanha. Agora não são mais as paredes o eixo de sustentação, mas as abóbadas. A verticalidade aponta ao infinito e a sensação que se tem é de êxtase. Estamos diante de uma verdadeira “verticalização da fé”. Tudo no templo é um convite para olhar para o alto. As catedrais góticas, além de serem um grande livro a ser lido por todos – analfabetos ou ilustrados –, educavam todo o povo para uma visão de mundo bem diferente daquele das primeiras comunidades cristãs. A grandiosidade das construções expressa a força religiosa, social e política da cristandade medieval.

A época moderna inicia-se trazendo o peso das instituições da Cristandade como a venda de indulgências que serviam também para a construção de grandes catedrais, as cruzadas e a inquisição, e um movimento crescente de contestação que culminará com a Reforma Protestante encabeçada por Martinho Lutero. São famosas suas 95 teses. No que se refere à questão dos templos religiosos, a Reforma traz como prática uma arquitetura de austeridade e simplicidade. Desaparecem os inúmeros altares, as imagens, e centraliza-se toda liturgia na Sagrada Escritura. A Palavra é o centro da celebração cristã protestante. Neste momento, os templos expressam contestação à grandiosidade do estilo gótico.

No meio católico, os Jesuítas assumiram também a construção de templos simples, utilizando materiais de construção bem acessíveis do ponto de vista econômico. A opulência dos templos monásticos e das catedrais góticas vai desaparecendo como estilo arquitetônico nas novas construções mundo a fora. Nas terras colonizadas, contudo, prolonga-se a cristandade com templos que se destacam na geografia urbana, sempre localizados num espaço elevado da cidade ou vilarejo. Ao se chegar a uma cidade colonial, o primeiro prédio que o visitante vislumbra é a igreja católica. Nas terras colonizadas sob a forma de cristandade, não é permitida a presença protestante. O Estado português pactuou com a Igreja através do Padroado de manter as terras portuguesas sob a fé católica.

Em certos casos no Brasil colonial, desenvolve-se uma arquitetura de estilo barroco, com altares revestidos em ouro, e presentes em grande quantidade nas cidades de então. Assim, podemos observar os templos da região das Minas Gerais, como Ouro Preto, Congonhas, Mariana, Sabará, etc.

O século XX presenciou o surgimento de um novo movimento religioso, sendo considerado como um dos segmentos que mais cresce no mundo. Trata-se do movimento pentecostal e neo-pentecostal. Neste setor, cresce tanto o número de novas denominações religiosas como a construção de novos templos. Nos inícios, as Igrejas foram nascendo e reunindo-se em imóveis alugados principalmente nos bairros mais pobres. Em pouco tempo, o movimento partiu para as grandes concentrações nos estádios de futebol ou em áreas ainda não ocupadas pelo crescimento imobiliário e praças. A Teologia da Prosperidade vai configurando novas formas de espiritualidade.  É de se notar a relação profunda em termos simbólicos entre o Templo de Salomão e o apogeu da monarquia hebraica no século X a.C.

Nas últimas décadas, o movimento evangélico parte para a construção de grandes templos, como este de São Paulo, com capacidade para 10 mil pessoas. Segundo Elio Gaspari, “o Templo de Salomão haverá de se tornar um símbolo da cidade e da fé dos brasileiros”. E completa de maneira mais incisiva sua avaliação sobre esta construção: “O Templo de Salomão como a Basílica de São Pedro e a Catedral do México, são símbolos da fé dos povos”. Até que ponto podemos estabelecer esta simetria entre tamanho dos templos e expressão da fé? Será que em razão da quantidade de catedrais e Igrejas da Europa medieval com tamanhos monumentais podemos concluir pela grande fé daquela cristandade?

Também nos meios católico e protestante histórico (luterano, presbiteriano, batista, metodista) nota-se o crescimento do desejo de se construir grandes templos. A força desse novo movimento religioso tem atraído cada vez mais pessoas, reunindo milhares de pessoas em eventos nacionais e mundiais. Aqui também nota-se o desejo de construção de grandes templos para a reunião de milhares de pessoas de todas as idades e nível sócio-econômico.

Também no século XX, vimos crescer entre nós, alimentadas pela Teologia da Libertação, as Comunidades Eclesiais de Base, que ocupavam pequenos espaços nos imóveis urbanos, garagens, casas, barracos, etc. As CEBs produziram enormes frutos e a “opção preferencial pelos pobres” como medida evangélica para avaliar a fé de um povo contrasta frontalmente e radicalmente com posição do colunista Elio Gaspari. Foram as CEBs um celeiro de líderes sócio-políticos que lutavam pelos Direitos Humanos, pela Democracia, pela superação da pobreza e da miséria. Penso que o Evangelho de Jesus Cristo das Bem-Aventuranças não se coaduna com a perspectiva da cristandade.

Podemos perguntar: não estaríamos vendo surgir um novo tipo de cristandade sob o modelo pentecostal? Os grandes templos servem muito bem para uma espécie de marketing da fé, mas não podem ser considerados em sentido estrito como expressões da fé de um povo. Podem servir para cooptar novos adeptos por sua capacidade de impressionar, mas está bem distante do espírito de comunidade que é a base da experiência cristã. O diapasão da fé indica outra nota para medir a intensidade da adesão religiosa evangélica. Não podemos enganar o povo com a ilusão de que sua fé se reduz à doação de dinheiro para a construção de grandes templos.

Qualquer templo religioso exerce a função de alteração das sensações e percepções à sua volta. A referência às Escrituras Sagradas deve ser o princípio fundamental para orientação na construção dos templos cristãos, contudo há que se ter uma boa interpretação dos próprios textos sagrados. Existe o risco de manipulação do texto em função dos interesses pessoais. A arquitetura empregada na construção destes espaços cumpre a função de demarcar um território para que o homem encontre um momento de transcendência. Na verdade, estes lugares devem obrigatoriamente remeter à essência do humano que é um movimento em direção a Deus, ao outro e ao mundo, uma transcendência plena, comunhão com o Criador e as criaturas. É para isso que fomos criados. Restabelecer a transcendência rompida ou a comunhão desfeita foi a missão do Filho aqui na terra. Esse é o mistério que envolve o sentido profundo de se reunir nos templos religiosos cristãos.

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