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A beleza do "Bom Pastor" está na coragem de encarar o conflito para que todos tenham uma vida bela, boa e feliz

O rosto de Deus foi sempre maquiado. Ao longo da história da humanidade máscaras foram produzidas e impostas à sua face para dar-lhe a identidade que mais se prestasse ao jogo dos manipuladores. Essa tentação é universal. Cada ser humano é acometido pelo desejo de criar um deus a própria imagem e semelhança, com o rosto ardilosamente modificado e customizado segundo as medidas dos próprios interesses.

Produziu-se uma caricatura de Deus. Por vontade humana, Deus envelheceu, deixou a barba branca crescer, fechou a cara e virou carrancudo. Seu nome foi usado e abusado para justificar horrores. Sua beleza acabou escurecida. Acabou prevalecendo uma imagem feia de Deus. A deturpação do Seu rosto produziu a deturpação do rosto humano.

Foi para resgatar Sua beleza e mostrar Seu verdadeiro rosto que Deus mandou o Filho. Não por pura vaidade, mas porque sempre quis que Seus filhos, espelhando-se em seu verdadeiro rosto, pudessem alcançar uma vida bela, boa e feliz.

No Evangelho de João, sobretudo no discurso do “Bom Pastor” (Jo 10,,11-18) isso aparece com clareza. Contrariamente às traduções equivocadas, o texto original diz assim: “Eu sou o Pastor belo”. Nenhuma palavra está aí por acaso. “Eu sou” é o nome com o qual Deus se apresenta a Moisés (Ex 3). Através de Jesus, cansado de todas as feiuras que lhe foram atribuídas e de todas as máscaras que lhe foram impostas, Ele faz questão de se revelar como pastor belo.

Jesus de Nazaré é, portanto, a encarnação da face bela de Deus. É na contemplação de Seu rosto que podemos ver a beleza de Deus e é só na imitação da Sua vida que conseguimos ficar belos como Deus.

Mas, a tentação da manipulação deu a cara novamente. O “pastor belo” acabou se tornando o pastor bonzinho e adoçado de certa iconografia. Essa interpretação não tem nada a ver com o relato do evangelista João. O contexto não é de águas tranquilas e graciosas pastagens verdejantes, mas de conflito contra a instituição religiosa representada pelo Templo que havia se transformado em redil para prender o povo, explorar sua devoção, manipulá-lo com falsas doutrinas e submetê-lo a seus interesses.

O pastor belo não é “frouxo”, mas enérgico, forte e corajoso. Não dá moleza: derruba as mesas dos cambistas e expulsa do Templo todos aqueles que haviam feito daquele lugar sagrado um covil de ladrões. Mostra que tem garra para encarar os “lobos” que “atacam e dispersam as ovelhas” através de visões culturais, políticas, econômicas e religiosas que enfeiam a vida humana e pisoteiam sua dignidade.

Sua missão é conduzir o povo fora destes “redis opressores e manipuladores” rumo à plenitude da vida custe o que custar. Seu envolvimento é total. Toda sua vida é colocada a serviço desse projeto. Por trás não tem interesses espúrios. Faz tudo pelo mesmo amor gratuito que marca toda sua vida. Sua relação com o povo é de cuidado. Conhece pessoalmente suas ovelhas e mantem com cada uma delas uma relação de profunda intimidade.

Não se deixa corromper e nem se dobra diante de nenhum poder. Só reconhece a autoridade do Pai que o mandou para entregar a vida para a libertação e salvação de seu povo. Seu único sonho é que o povo escute Sua Palavra e se engaje no projeto do Pai que é o único capaz de tornar a vida bela, boa e feliz. Que a coragem do pastor belo inspire nossa atuação nestes tempos de trevas para que possamos iluminá-las com nossas belas obras de libertação.

 

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