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Carta ao Menino Jesus

Caro Menino Jesus,
Estava começando a escrever um texto para desejar Feliz Natal para meus amigos, quando ouvi
o rádio dizer que os vereadores de vários municípios do país aumentaram nestes dias seus
salários. A Câmara de São Paulo, na calada da noite, numa sessão relâmpago que durou apenas
cinco minutos, elevou seus rendimentos de 30 por cento “para compensar as perdas da
inflação”. Você que sabe tudo deve ter percebido que minha revolta alcançou índices
alarmantes. Por isso, para não correr o risco de fazer besteira, decidi escrever diretamente para
você.
Desculpe lhe aborrecer. Afinal você é uma criança, ainda mais, pobre, confiada aos cuidados de
dois adolescentes que não têm aonde caírem mortos, sem um centavo no bolso para pagar uma
noite de hospedagem, obrigado a vir ao mundo num curral sem assistência pois autoridade é
toda igual. Não está nem aí com a saúde do povo. De pobreza você é entendido.
Vê se me dá uma luz! Como seus amigos pastores, o nosso povo de periferia sofre para caramba.
Pega no pesado e ainda é chamado de vagabundo. Tem gente que cata o dia inteiro para
sobreviver. Há outros que andam para caramba para vender sua mercadoria. Até quem tem
carteira registrada ganha um salário insuficiente para cobrir os gastos da família. A piorar a
situação vem o descaso com os serviços públicos. Tudo funciona porcamente.
Não adianta protestar. “A culpa é da crise”, gritam no palco do teatro “Me engana que eu gosto”
os administr-atores públicos servindo-se do megafone das mídias da confraria da mentira que
desliga as câmeras e os microfones quando precisa fazer ressoar o grito dos oprimidos.
O incrível é que no País das Mil Desigualdades até a praga da crise foi contaminada pela
iniquidade. No laboratório dos capitalistas sem escrúpulos foi geneticamente modificada para
virar mais uma doença de pobre e atingir só os trabalhadores assalariados, os sobreviventes da
economia informal, os aposentados, os sem teto e sem-terra, os trabalhadores rurais, o povo
de rua e os miseráveis em geral.
Aqui não chegou a PAZ que você trouxe. Veio a PEC DA MORTE. No lugar da Vida em plenitude
que você anunciou, a cada dia e a cada esquina a gente dá de cara com a morte. A nada adiantou
você dizer que o ser humano vale muito mais de qualquer lei. Aqui a todo instante se aprovam
leis para arrancar um a um os direitos que o povo conquistou às duras penas, mas quando se
trata de votar em benefício dos mais pobres os legisladores desaparecem milagrosamente. Sua
mãe nos alegrou quando cantou na casa de Isabel que você derrubaria os poderosos dos tronos
e colocaria os pobres em pé para andar de cabeça erguida. Falta muito para isso acontecer.
Nem as delações premiadas estão conseguindo derrubar a cambada de políticos ladrões que,
feitos vampiros, sugaram o sangue do povo se apoderando ilegalmente do dinheiro público. O
poder judiciário parece ter acordado, mas está bem longe da justiça de seu Pai que atende com
prioridade os mais pobres e garante a cada um o que precisa. Na nossa realidade a bemaventurança
dos pobres não vale nada. A maioria dos pobres que erram ficam amontoados em
masmorras aguardando os tempos da justiça que não são os nossos nem os seus. Bemaventurados
mesmo são os ricos que podem pagar um bom advogado. Só a eles pertence o
direito de cumprir a pena em domicilio, em casarões e apartamentos luxuosos. À imagem de
pobres algemados mãos e pés cujo rosto é amplamente exposta ao linchamento público mesmo
antes da sentença, contrapõe-se aquela dos ricos e poderosos, de cabeça baixa, com a cara
preservada, com as mãos atrás e, ao máximo, com a tornozeleira.
Quer um conselho de amigo? Se puder, evita de andar por aqui. Pois a turma dos temer-ários
vai dizer que a culpa é sua também. Eu sei que você é teimoso e gosta de se colocar em apuros,
sobretudo quando se trata de tomar a defesa do povão, mas não gostaria que fosse enquadrado
na lei de combate ao terrorismo que criminaliza os movimentos populares. É bom que você
saiba que defensor de direitos humanos no Brasil é considerado bandido. Vai parar na cadeia
e, mesmo sendo menor de idade, vai apodrecer numa destas unidades socioeducativas que têm
tudo a ver com a masmorra onde Herodes aprisionou seu primo João Batista para calar
definitivamente sua voz. A sua sorte é que aqui não tem pena de morte, mas, pelo andar da
carruagem, não vai demorar para acontecer.
Diante desse quadro eu lhe peço insistentemente: nesse Natal, muda de endereço. Dá
prioridade aos ricos e poderosos. Quem sabe que uma sua visita toque o coração deles. Afinal
das contas ninguém resiste à fragilidade de uma criança a não ser que no peito deles, no lugar
do coração, bata a mesma maldição de Herodes. Uma boa chacoalhada não faz mal. Quase
todos eles dizem que são cristãos. Aproveite a brecha. Nada é impossível a você. Se o colocarem
para fora de suas mansões e de suas instituições ainda uma vez, lembre-se que toda casa de
pobre estará aberta para recebê-lo.
Quanto a nós, cura nossa cegueira obcecada pelos holofotes do sistema. Dê ousadia suficiente
para se reorganizar, sair às ruas e defender unhas e dentes tudo aquilo que garante vida com
dignidade a todo o povo brasileiro. Afia nossa língua no fogo do seu amor para que nunca nos
calemos de denunciar toda e qualquer violação aos direitos humanos.
Aos pastores que, por primeiros receberam a boa notícia de seu nascimento, foi apontado como
sinal você, uma criança frágil e pobre, envolvida em faixas e deposta numa manjedoura. Ao
povo que há séculos aguardava um Messias que fosse um rei forte e dominador, eis que aparece
em você um Deus pequeno, amigo dos pobres, para caminhar com os últimos e construir, graças
ao protagonismo dos pequenos, aquele novo mundo que é ainda possível.
Faça que, iluminada pela sua estrela guia, nossa vista clareie e voltemos a acreditar no valor de
nosso povo. Você foi experto. A estrela passou de longe do palácio de Herodes e foi parar num
lugarejo da periferia apontando que só o povo salva o povo.
Despeço-me de você cantando com seus anjos: “Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos
homens e as mulheres de boa vontade que vivem sem temer”. Brincadeira… Mas está ligado.
Sem medo e com ousadia a vida do povo será melhor!
Obrigado por ter me escutado
Feliz Natal!
Pe. Saverio Paolillo (pe. Xavier)
Missionário Comboniano
Pastoral do Menor e Carcerária da Arquidiocese da Paraíba
Centro de Defesa dos Direitos Humanos dom Oscar Romero – CEDHOR

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