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Um olhar sobre este momento histórico. Artigo de Dom Luiz Mancilha Vilela

Mesmo quem olha superficialmente o mundo atual irá perceber que vivemos uma grande crise ética e econômica. Preocupo-me primeiramente com os problemas éticos, tão importantes para a nossa convivência como seres humanos no planeta terra. A nossa história, desde o período da pedra, mostra-nos que carregamos conosco uma profunda agressividade. Somos agressivos não somente entre nós, seres humanos, mas, até para a nossa sobrevivência, usamos da agressividade, seja em relação aos animais ou em relação às plantas.

O mesmo comportamento observamos nos animais irracionais, dos menores aos maiores e mais fortes. Ironicamente podemos dizer que convivemos, dependemos um dos outros e nos alimentamos uns dos outros. O Planeta terra é um lugar onde todos convivem e vivem uns dos outros.

Essa agressividade latente em nós torna-se muito clara aos nossos olhos, neste período eleitoral. Os partidos digladiam-se, não pelos projetos que deveriam ser apresentados e não o são, mas exalam uma agressividade tal, em alta tensão emocional, cada um imbuído de sua ideologia que não se deixa questionar, gerando um ambiente humano agressivo, intolerante, pesado e perigoso.

Observemos, por exemplo, o ódio que uma boa parte da sociedade brasileira tem para com o partido do PT. Brigas e até tiroteios já aconteceram por causa do ódio entre os adversários. Não sei se são adversários ou inimigos. Perde-se a racionalidade. Perdem-se ou pelo menos esquecem-se princípios e valores fundamentais para uma democracia, como o respeito e tolerância a pensamentos diferentes e aos valores propostos pelo Evangelho: amor pelo próximo, defesa dos mais pobres, igualdade entre todos. Fomos criados para amar e viver a fraternidade, então por que em momentos importantes como este da eleição nos tornamos intolerantes e agressivos?

Essa agressividade entre as partes, esquerda e direita, predomina algo que não seja propriamente a defesa de uma das ideologias partidárias. Este quadro social me faz perceber algo mais sério e com origem não tão distante: a constituição do povo brasileiro que vem acontecendo desde a chegada de Pedro Alvares Cabral e sua comitiva, origem de uma crise grave de identidade.

O ódio ao PT e a defesa do PT, como se manifesta hoje, não seria a manifestação de um inconsciente coletivo proveniente desse passado não tão longínquo. Não seria por parte dos que odeiam o PT não, propriamente, um ódio ao partido, mas a expressão de um inconsciente escravocrata e colonialista, uma classe de privilegiados que não quer perder a sua posição social e seus direitos de séculos passados conseguidos pelos seus antepassados. Já os que defendem o PT nesta agressividade tamanha, também não é o partido que defendem, não seria também o complexo de inferioridade devido ao histórico e a situação social de escravizados culturais, de falta de oportunidades que desejam ter como todos os privilegiados seus conterrâneos! De que se trata, então? Surgem dois quadros em conflito: aqueles que estão na situação mais privilegiada e aqueles que não tiveram as mesmas oportunidades. Isto é muito grave.

Nesta mudança de época em que vivemos precisamos dar um passo à frente. Urge em nosso país uma reforma política onde não haja lugar para as posições classistas e mesquinhas. Isto não se consegue através de polarizações ideológicas mas de valores culturais humanos presentes em nosso povo multirracial, em vista de uma sociedade justa, igualitária e fraterna, que proporcione a todos os cidadãos e cidadãs oportunidades, partilha cultural, direitos comuns iguais, vida de convivência onde sejam extirpados o atraso do colonialismo, da escravidão e o elitismo social, como também a superação das lutas de classes, ideologias que produzem injustiças e morte. Sociedade onde prevaleçam equanimemente a pessoa e sociedade que geram o povo consciente e sujeito de seu progresso como pátria desenvolvida, onde a liberdade de expressão tenha reconhecimento pleno com a grande responsabilidade perante o povo e a autocensura em relação ao fanatismo e extremismo ideológico e desumano.

Vejamos o que está acontecendo. Para onde vamos? A polarização ideológica radical é um caminho para a paz e para o progresso? A resposta é sua.

Dom Luiz Mancilha Vilela, sscc
Arcebispo Metropolitano de Vitória do Espírito Santo

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