buscar
por

Pe. Kelder homenageia dona Ruth com uma mensagem

Uma mensagem de homenagem a dona Ruth de Albuquerque Tavares foi feita pelo Pe. Kelder Brandão durante a celebração que antecedeu o sepultamento dela, ocorrido no domingo (22 de outubro). Dona Ruth, como era conhecida, era presbiteriana e morreu no sábado aos 92 anos, tendo sido durante toda vida um exemplo de trabalho pelo ecumenismo e diálogo inter religioso.

Na mensagem, Pe. Kelder conta sobre como a conheceu, lembra as boas influências que ela deixou a todos que conviveram com ela e comenta sobre seu trabalho insistente para tornar o mundo um lugar melhor para todos.

Pe. Kelder terminou fazendo votos que nós que ficamos saibamos dar continuidade ao legado que ela ajudou a construir, para que o respeito supere a intolerância, o diálogo supere a divisão e o amor supere o ódio.

Leia a mensagem na íntegra.

 

Páscoa de Dona Rute
22 de Outubro de 2017
Cumprimento e agradeço ao Pastor Gilsom, ao Elieser e a Berenice, filhos de Dona Rute, demais pastores e pastoras, presbíteros e presbíteras da Igreja Presbiteriana Unida, pela oportunidade de participar e partilhar com vocês esse momento, quando tantos outros irmãos e irmãs, melhor preparado do que eu, aqui presente, poderia fazê-lo. É uma honra poder dirigir à assembleia, familiares, amigos e membros do presbitério da Igreja que Dona Rute ajudou a fundar e tanto amava, algumas palavras no dia de sua páscoa.

Há alguns anos, recebi um telefonema de Berenice convidando-me para fazer a homilia no aniversário de sua mãe. Fiquei muito feliz e honrado com o convite, afinal teria a oportunidade de dizer a uma amiga e mestra, em seu nonagésimo aniversário, o que pensava e o respeito que tinha por ela. Durante dois meses preparei-me para o grande acontecimento. Estava cheio de expectativas e torcendo para chegar o grande dia. Mas, aconteceu que no dia, envolvido com a saúde debilitada de meu pai, acabei esquecendo da celebração. Até hoje não consigo olhar para Berenice e Eliezer sem ficar constrangido. Sem dúvidas foi o maior constrangimento que tive ao longo de 50 anos.

Então, hoje, para reparar a minha falha, pedi que eles me possibilitassem dirigir a Dona Rute e a vocês algumas palavras sinceras. Hoje, a capa do maior jornal de circulação do Estado, A GAZETA, trouxe como manchete principal uma matéria sobre intolerância, retrocessos e fundamentalismo religioso, fato que se torna cada vez mais recorrente no Brasil e no mundo. Justamente hoje, quando sepultaremos o corpo inerte de Dona Rute. Não podemos considerar isso uma mera coincidência ou uma ironia da vida. Penso ser um sinal que nos é dado para refletirmos sobre o mundo em que estamos vivendo e que civilização estamos construindo.

Conheci Dona Rute há cerca de 25 anos, quando ingressei no Seminário Nossa Senhora da Penha. Ela dava aula no curso de filosofia no Instituto de Filosofia e Teologia da Arquidiocese e, posteriormente, no curso de teologia. Não cheguei a ser seu aluno em sala de aula, mas desde que a conheci, quis ser um discípulo seu por toda a vida. Ela se tornou uma grande mestra para mim e, com o passar do tempo, tive a oportunidade de conhecer sua vida e sua obra, juntamente com a de outras pessoas ligadas ao ecumenismo como Irmã Rita, Dona Clícia – sua fiel amiga -, e outros que já partiram como Pr. Joãozinho, Pr. Norberto e Rev. Clode. Que obra grandiosa Dona Rute nos deixou, comparável à das grandes mulheres das Escrituras Sagradas e da História da Igreja.

Dona Rute não foi apenas uma fiel cristã protestante – como gostava de ser chamada -, ou uma presbiteriana autêntica. Não! Ela foi muito mais. Ela era sábia como Míriam, corajosa como Debora, destemida como Judite, magnânima como Ester, altiva com Bertsabéia, firme como Sara, maternal como Agar, astuta como Ramá, humilde como Noemi, solícita como Rute – que lhe inspirou o nome-, confiante como Isabel – mãe do precursor-, e isso tudo mantendo a serenidade, doçura, alegria e ousadia que encontramos na Virgem de Nazaré.

Não pretendo e nem tenho condições de elencar aqui todas as virtudes e obras que Dona Rute realizou o longo de seus 92 anos, desfiando as contas infinitas de um rosário de títulos e mais títulos de graduações e pós-graduações que ela tinha, mas, também, não posso deixar de falar da importância que ela teve na minha vida como cristão e como padre. E o mesmo posso afirmar com relação a muitos irmãos meus do presbitério da Arquidiocese. Até hoje não sei dizer se como protestante ela era uma excelente católica ou se como católica ela era uma excelente protestante, tamanha era a sua compreensão sobre a Igreja, a fé cristã, o ecumenismo e, principalmente, sobre Deus e a humanidade. Mas é fato que ela foi uma cristã autêntica no sentido mais radical da palavra.

No momento em que o supremo tribunal federal (escrito com letras minúsculas, mesmo. A cada sentença que pronuncia, o stf se torna menor) conspurca o ensino religioso, tornando-o confessional e doutrinário, legitimando o que existe de pior e de mais retrógado nas Igrejas cristãs e na sociedade, o que acirrará o ódio e a violência nas escolas públicas, é importante ressaltar que a vida e a obra de Dona Rute sedimentam o que existe de melhor nas Igrejas e no mundo. Sua vida foi uma entrega total ao ecumenismo, ao ensino e diálogo inter religioso.

Dona Rute viveu para agradar a Deus, trabalhando insistentemente, para tornar as instituições mais humanas e o mundo um lugar melhor para todos. “Ensinava aprendendo e aprendia ensinando”. Teve uma vida inteira dedicada à educação usando a educação e a fé como instrumentos importantes para a transformação, emancipação e inclusão das pessoas nas instituições e na sociedade.

Hoje, nos despedimos de você, Dona Rute, como carinhosamente a chamávamos, querida amiga, mãe, esposa, avó, mestra e discípula, na firme certeza de que um dia nos encontraremos para o grande banquete do dia sem ocaso, na primavera sem fim, contemplando a face radiante de nosso Amado e Bondoso Deus, a quem você dedicou a sua vida. Vai ser uma festa linda de se celebrar!

Daqui há pouco, seu corpo descerá à sepultura, como uma semente de baobá que desce à cova, para fecundar o seio da mãe terra, no eterno ciclo de vida-morte-ressurreição, e que produz uma flor imensa, de uma beleza e odor indescritíveis, como você, querida Dona Rute que embelezou o mundo de uma forma única exalando o agradável odor da fé, do amor e do respeito ao diverso e divergente.

Agora, aproveite enquanto aguardamos o dia da festa que não tem fim e junto com Irmã Cleusa, Pe. Rômulo, Rev. Clode, Dom João Batista Albuquerque, Cônego Maurício, Pr. Joãozinho, Pr. Joaquim Beato, Pastor Norberto e tantos outros que, como você, souberam viver e transmitir o universalismo da fé cristã e crie, ai no céu, um Conselho ou uma comissão Interconfessional e religioso com os anjos, santos e santas que já nos precedem na Casa Paterna.

Um Conselho ou Comissão para preparar a grande festa da vida, onde ninguém deve ficar de fora. Onde todos celebrarão com nosso Bondoso Deus de tradição judaico-cristão, junto com Alá, dos muçulmanos, Buda dos budistas, os Orixás dos africanos, os Caboclos da umbanda, os Espíritos Ancestrais da pajelança, os Espíritos e entes dos kardecistas e a infinidade de divindades dos hindus. Mas todos reunidos com um único e só propósito de celebrar a grandeza que cada ser humano trás em si, como você nos ensinou, querida Dona Rute.

Cabe a nós que ficamos darmos continuidade à obra que você ajudou a construir para que o respeito supere a intolerância; a diversidade supere a uniformidade; o diálogo supere a divisão; o consenso supere o autoritarismo; a paz supere a violência e o amor supere o ódio.
Descanse em paz, grande amiga, certa de que você combateu o bom combate! Até breve! E muito obrigado por nos ajudar a ser um pouco melhor do que poderíamos ter sido.

 

COMENTÁRIOS