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Pe. Kelder fala sobre a ação policial ocorrida no Bairro da Penha

Foi um sentimento de pura indignação com uma ação preconceituosa e discriminatória do estado que, segundo o Pe. Kelder José Brandão Figueira, pároco da Paróquia Santa Teresa de Calcutá, o levou a escrever um artigo sobre a operação da polícia, ocorrida na madrugada do dia 1° de Agosto, no Bairro da Penha.

“Eu não vejo esse tipo de ação acontecendo em bairros nobres, em lugares como faculdades e universidades, onde sabemos que o tráfico também ocorre. Isso nunca vai acontecer por lá, mas por que somente nos bairros de periferia. Por que aqui, onde as pessoas trabalham tem que acontecer esse tipo de operação”, questionou.

Pe. Kelder afirma que o estado sabe que ações como essas que aconteceram no bairro, (helicópteros sobrevoando o local e aterrorizando moradores com foguetes e prisões), não resolverá o problema do tráfico na região e nem em lugar nenhum. Para ele, a questão não está apenas no tráfico, mas na violência que está associado a ele.

“Acho que o Estado precisa desenvolver ações que sejam humanizadoras  das relações que acontecem nas periferias, além de implementar políticas adequadas  de inclusão social, educação, geração de emprego e renda e de moradia decente. Essa é a função social do estado”, afirma.

Para o padre, entretanto, essas ações estão ainda mais distantes de acontecer, pois o congelamento dos gastos públicos vai possibilitar ainda mais a a pobreza e a miséria.

“A vulnerabilidade social vai aumentar, a pobreza vai aumentar e as pessoas precisam comer. Então, se o estado não proporciona o mínimo, as pessoas vão ao encontro de quem está proporcionando. São 15 milhões de pessoas desempregadas hoje no Brasil. O que vai sobrar para essas pessoas sem assistência social?”, disse.

Pe. Kelder diz ainda que o mais triste é ver o processo de desumanização da sociedade e a criminalização dos jovens, dos adolescentes e das crianças. Ele defende que operações da polícia como as que tem acontecido no Bairro da Penha e nas áreas mais periféricas fazem parte de uma política de criminalização dos jovens pobres.

“O sentimento é de indignação, principalmente quando ouço que se prende um jovem por dia no Bairro da Penha. Por que no Bairro da Penha?”, questiona.

Leia o texto na íntegra:

 “O meu é maior que o seu”

Sou padre do Bairro da Penha. Na madrugada de terça-feira, 01 de Agosto, acordei de madrugada com barulho ensurdecedor de helicópteros e foguetes. Logo fiquei sabendo que havia uma grande operação policial na região e deduzi que alguns jovens seriam presos, afinal essa é uma rotina comum nos bairros de perifeira. Nenhuma novidade até aqui.

É fato que o tráfico tem grande inserção na região e demais periferias, como em todos os espaços geográficos, sociais e institucionais. Então porque só acontecem operações policiais ostensivas contra o tráfico nas periferias e, em especial, no Bairro da Penha?

Estou morando aqui há seis meses, andando pelas ruas, becos e escadas dos morros e encontro uma infinidade de pessoas, a maioria de jovens, adolescentes e crianças. Pessoas que riem, choram, brincam, correm saltam pipas e sonham. É linda e pulsante a manifestação da vida na periferia!

Vejo também em minhas andanças a carência, a pobreza e a fragilidade das pessoas, bem como as ausências, principalmente, do poder público que abandonou os pobres à própria sorte, fazendo-se presente apenas de forma ostensiva, para agradar determinados segmentos sociais que se sentem seguros com o uso da força e da violência contra os mais fracos.

O Estado insiste em não compreender que a violência que aterroriza a sociedade não é decorrente do tráfico, mas sim, das desigualdades sociais. Se o Estado pretende acabar com a violência deveria cuidar melhor das regiões econômica e socialmente vulneráveis, desenvolvendo políticas públicas adequadas de moradia, geração de emprego e renda, educação pública com qualidade, assistência básica e de prevenção à saúde, incentivo à cultura, esporte e lazer. Ao invés de disputar falicamente o poder com o tráfico em uma guerra insana do “meu fuzil é maior que o seu”, onde toda a população é prejudicada.

No Bairro da Penha, como nas demais periferias, não existem pessoas do bem e pessoas do mal. Existem pessoas que são discriminadas por serem pobres, a quem são negados os direitos básicos e fundamentais a uma existência digna. Se continuarem prendendo os moradores do Bairro da Penha como vem acontecendo ao longo do ano, em que cerca de um morador está sendo detido por dia, provavelmente até o padre será preso, mas o tráfico continuará existindo, desafiando o Estado. Mas, honestamente, prefiro ser encarcerado com os pobres a viver a falsa liberdade e a segurança de um sistema político desumano que em nada se compromete com a vida e a dignidade das pessoas.

Pe. Kelder José Brandão Figueira

 

 

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