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Os sinos das igrejas e o som das balas disparadas. Texto de Pe. Renato Criste

Diante da violência que tem acontecido com cada vez mais frequência em nossa sociedade, Pe. Renato Criste, pároco da Catedral de Vitória, escreveu um artigo propondo uma reflexão sobre nossa atitude perante ela.

“Penso que é tempo de prestar atenção no ressoar dos sinos, decifrar as suas notas musicais a fim de despertar o ser humano do estupor que paralisa convidando-o novamente a abrir-se a Deus e ao irmão na comunhão. O som dos sinos esquecidos das igrejas é uma mensagem urgente para os homens do nosso tempo. Querem ser um grito suave da vida que é mais forte que a morte, verdadeiros tons de esperança que anunciam dias melhores.”

Leia o texto na íntegra.

Nos últimos meses, no domingo de Ramos da Paixão do Senhor e no 10º do Tempo Comum, antecedeu-se aos sons dos sinos das igrejas – convidando a todos para o louvor a Deus no dia especialmente dedicado a Ele – os sons das balas no morro da Piedade anunciando mais uma tragédia no morro, misturados ao grito de desespero da mãe que vê a vida dos seus filhos jovens ceifada ou da criança apavorada.

Os sinos sempre tiveram a finalidade de evocar os sentidos humanos a elevar o coração para o alto. Nas igrejas e nos vilarejos, sempre havia um sino como “instrumento de comunicação”. O toque dos sinos servia, por exemplo, para convidar para uma reunião, ou para anunciar o falecimento de alguém, para avisar de um incêndio, para pedir socorro e alertar em situações de catástrofes naturais.

Mais especificamente, nas torres das igrejas, os sinos serviam para marcar as horas de oração. Assim, o sino pode ser entendido como símbolo de comunhão, anúncio, convocação e, principalmente, como chamado a viver o Amor de Deus. Nos centros de nossas cidades o som dos sinos se misturam ao som das balas que aterrorizam, causam medo e matam. Estas quase sufocam o embalo dos sinos sincronizados ressoando a harmonia e convidando a despertar.

A religião não é uma invenção humana, ela antecede à profissão de fé do crente e desta não depende. O ser humano é um ser religioso. Este se descobre limitado e dependente, e ao mesmo tempo num conflito com algo que o interpela e abre um espaço que parece não ter fim. O homem sempre precisou de elementos sensíveis que pudessem mediar aquilo que ainda assim não cabe dentro dos nossos conceitos e imagens.

Pensar a religião e uma experiência religiosa autênticas não só deveriam comprometer o homem a viver o seu tempo como um lugar de transformação, isto é, um “kairós” (tempo da graça de Deus), como uma resposta à aquilo que o angustia na profundeza do seu ser. A religião autêntica comporta, portanto, tanto uma dimensão ética no sentido do compromisso humano a partir da sua experiência de Deus que o interpela, como também uma dimensão terapêutica que o liberta daquilo que o oprime e fere.

A violência é um estrondo que parece não incomodar mais a todos. Aos poucos vamos nos acostumando com a agitação das periferias e dos centros de nossas cidades, com o gritos oriundos das balas disparadas. Assim como os sinos parecem ter perdido o seu lugar e a sua função, quando ainda não perturbam “a paz e sossego” de alguns habitantes, nós nos esquecemos dos sinos das igrejas.

O som das balas disparadas sempre comunicam uma só coisa: o medo que limita ou tira a vida. O som dos sinos, mesmo que anunciam uma morte ou uma catástrofe natural, ainda querem comunicar a vida. Sua função é ser um som que alerta e faz ecoar o valor da vida que deve ser valorizada, defendida e divinizada.

Penso que é tempo de prestar atenção no ressoar dos sinos, decifrar as suas notas musicais a fim de despertar o ser humano do estupor que paralisa convidando-o novamente a abrir-se a Deus e ao irmão na comunhão. O som dos sinos esquecidos das igrejas é uma mensagem urgente para os homens do nosso tempo. Querem ser um grito suave da vida que é mais forte que a morte, verdadeiros tons de esperança que anunciam dias melhores.

Contudo, como explica o apóstolo Paulo, “ainda que eu fale as línguas dos homens e dos anjos, se não tiver amor, serei como o bronze que soa ou como o címbalo que retine.” (1 Coríntios 13,1). Portanto, se não houver em nós o amor verdadeiro, seríamos apenas como um sino barulhento que mais irrita os que o ouvem do que produziríamos um som melodioso e agradável. Ou a ostentação de um poder arbitrário com discursos vazios e palavras mortas sem ter na verdade um objetivo proveitoso. Que o som das balas silencie, que o som dos sinos ressoe, assim como a nossa voz a clamar: Senhor, PIEDADE de nós!

Pe. Renato Criste Covre
Pároco da Catedral de Vitória

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