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HOMÍLIA DIÁRIA

Missa de abertura do ano letivo de 2019

Meus irmãos e minhas irmãs!
Paz e bem.
- Em primeiro lugar quero saudar os meus irmãos no episcopado e ao Administrador Diocesano da Diocese de Cachoeiro de Itapemirim, que formamos essa Província Eclesiástica do Espírito Santo.
- Quero saudar também com grande alegria e, desde já agradeço, ao Padre Hugo e ao Padre Arthur, responsáveis pelo Instituto de Teologia, que com tanto zelo e dedicação têm contribuído na formação de todos os nossos seminaristas e de muitos que por aqui já passaram. Saúdo também o Padre Anderson responsável pelo Centro de Formação, bem como aos demais professores e funcionários, agradecendo pelo serviço prestado à igreja, de modo especial a nossa Província Eclesiástica, quero também saudar os nossos Reitores das nossas casas de formação. Com grande carinho quero saudar a todos vocês seminaristas, das quatro dioceses do nosso estado, bem como os religiosos (as), acolho também com carinho os leigos e leigas que aqui se encontram e estudam.
- Pela graça de Deus, com essa celebração damos início ao ano letivo de 2019. Quero partilhar com vocês três pontos presentes na liturgia da Palavra que acabamos de escutar:
- O primeiro se encontra no Livro do Gênesis e diz respeito ao verbo Criar, que na Sagrada Escritura é somente utilizado para indicar a criação e a ação divina na história do mundo e da humanidade.
- O segundo diz respeito ao convite que o Salmo 103 nos faz à contemplação, ou seja, ao reconhecimento da beleza da criação e ao compromisso em construir a Casa Comum.
- Terceiro, se encontra também no Livro do Gênesis e diz respeito à expressão utilizada pelo autor do texto ao referir-se à atitude de Deus diante da obra criada: Deus viu que era bom.
- Vocês me levaram a estudar nesse fim de semana, retomar a exegese, veja o verbo Criar, utilizado pelo autor do Livro de Gênesis, uma forma verbal que, em toda Sagrada Escritura, é sempre usada para indicar a ação divina. Um ouvinte atento vai perceber que, no texto litúrgico o verbo não aparece, pois é traduzido pelo verbo falar: E Deus disse! De fato, Deus cria por meio de sua Palavra. O “falar” de Deus é, em si mesmo, um ato criador e salvador, uma Palavra viva e eficaz, que se faz presente na história e se desdobra. Da Palavra Criadora de Deus todo o universo passa a existir e a força de sua ação ainda continua a percorrer o tempo e a história. Para o mundo bíblico, Deus continua a Criar, por meio da força de sua Palavra, algo que se faz sentir desde a libertação do Povo escravo no Egito até o retorno dos exilados a Babilônia. Sendo assim, Criar é sinônimo de Falar, de Libertar, de Salvar e de Conduzir a caminhos novos, a uma estrada nova a um novo tempo.
- Meus irmãos, esta casa tem por finalidade ir em busca do saber, e quem se coloca em busca do saber está sempre aberto ao espaço do Criar, da criação, no qual todos os seus responsáveis, os funcionários, os professores e alunos devem se deixar moldar pela Palavra Criadora de Deus. Pois foi o próprio Senhor que, de diversos modos e maneiras, nos conduziu até aqui, a fim de que possa, à exemplo do texto bíblico no livro de Gênesis, iluminar a todos nós com a Luz de Sua Palavra. De fato, no texto a primeira obra criada foi a Luz, pois Deus como grande artesão, precisava dela para continuar a sua maravilhosa obra, bela em toda a sua extensão. Sendo assim, não fechemos os corações à Luz da Palavra, à luz do saber, capaz de criar em nós espaços novos e por meio de cada um de nós, abrir a nossa mente para horizontes novos para um mundo renovado pela Luz do Espírito Santo. O discípulo é aquele que se deixa modelar pelo seu pedagogo.
Segundo: O Salmo 103, nos convida a algo fundamental nesse tempo de relações virtuais e rápidas, que, por vezes nos fazem perder o essencial. O salmista faz uma profunda experiência do reconhecimento da presença do Senhor na obra da Criação, algo que o torna capaz de entoar um grande louvor ao Criador de todas as coisas, seja à causa de sua beleza, bem como pela sua bênção e santidade.
O Salmo nos convida a contemplação, nos convida a reconhecer que o Senhor manifesta a Sua Bondade e Amor, na maravilha da criação. Essa é a grande tarefa do Teólogo; contemplar e louvar com os seus lábios a obra de todo o universo, no dizer de São Francisco de Assis, chamar a cada ser de meu irmão e minha irmã.
- Já vai para oito anos que estou no Estado do Espírito Santo, e já deu para perceber e sentir que essa casa de estudo é marcada pela dedicação, pela responsabilidade, essa casa tem uma história, tem uma memória, formou e está formando o clero capixaba.
A vocês meus irmãos estudantes é oferecida a possibilidade de um estudo teológico de qualidade, para que cada um possa amadurecer a sua experiência de Fé, cabe a cada um mergulhar, ir cada vez mais para águas mais profundas, é esse o estudo que a nossa Igreja particular oferece, não precisamos buscar outro mar, e nem ficar na beira da praia lavando as redes.
O que quero dizer: todos são convidados a se colocarem diante da maravilha que é o universo do saber teológico e de que todas as demais áreas afins ao mesmo estudo, a fim de que o aprendizado e a formação intelectual contribuam para o crescimento de todos, em todas as dimensões da formação, isto é: a dimensão espiritual, humana e afetiva, comunitária e pastoral.
- Que seja esse tempo de formação um período no qual todos possam recuperar, a capacidade de reconhecer a ação de Deus em toda a sua obra criada. Que ao completarem a beleza do saber possam também ser tocados pela Luz da graça divina. Temos que buscar o essencial que é conhecer melhor a Jesus de Nazaré.
Só aquele que é capaz de contemplar e mergulhar no estudo e na meditação pode ainda amar, perseverar e cuidar, tomando para si a responsabilidade da defesa e promoção da vida humana e da natureza.
Sendo assim, a construção da casa Comum que é algo coletivo, não pode ser relegada a poucos e nem mesmo negligenciada, visto que a questão ecológica não é incompatível com a fé, mas lhe está diretamente vinculada. Onde somos chamados a um mundo sem males no qual todos têm lugar e dignidade respeitados, onde o que sobe aos céus não são lamentos de dor pela perda das pessoas amadas, mas, sim, hinos de louvor e comunhão, pela vida preservada.
Terceiro:
Diz respeito à atitude de Deus diante da obra de suas Mãos, o seu reconhecimento da Beleza e da Bondade da criação por Ele realizada. Algumas vezes, no relato que ouvimos, depois de cada obra criada o autor ressalta o fato de que Deus tenha visto e reconhecido que o que fizera era Bom. De fato, a maravilhosa harmonia presente no relato da Criação ressalta que todas as coisas se encontram em seu devido lugar e cumprindo o seu papel especifico. Não somente enquanto a realidade materializada, mas, sobretudo, como uma obra a ser continuada, desenvolvida, até que chegue à sua plenitude. Desse modo, a obra da Criação é apresentada ainda em curso, no caminho em direção à sua mais plena perfeição, um processo no qual, o homem está implicado diretamente.
- A lógica excludente e gananciosa que organiza a sociedade em que vivemos, marcada pelo comunismo de nosso tempo e a preocupação com o lucro desmedido, faz com que a natureza não seja vista em sua globalidade, em sua dimensão profunda do dom divino. Algo escandaloso que ainda hoje rasga a carne e a pele de muitas pessoas mortas e de suas famílias, bem como o coração da terra marcada pela lama que jorrou criminosamente da barragem rompida de Brumadinho. De fato, o nosso mundo corre o sério risco de perder o seu rumo e direção, dissolvendo-se na valorização sem medidas do presente. Rompendo assim toda e qualquer ligação fundamental com o sentido profundo do projeto divino para a criação, como um lugar da manifestação da bênção divina para todas as gerações.
É necessário a gente voltar a fonte, ao verbo criar, nós somos e seremos pastores do nosso povo, seremos a sua voz, sendo assim, é urgente que recuperemos o valor da Contemplação da experiência feita pelo salmista, pelo próprio São Francisco de Assis, o que nos pede o nosso Papa Francisco, ver a obra da criação como um presente para toda a humanidade e não somente para alguns.
- Que seja esse ano muito fecundo para todos nós e que possamos nos deixar tocar pela Luz da Palavra de Deus, pelos estudos teológicos na sua profundeza e que a força do Espírito Santo nos conduza e ilumine de modo que nossos olhos e corações sejam renovados, a fim de que entoemos ao Senhor com Palavra e vida, um grande hino de louvor e um respeito profundo com a criação.
Desejo a todos, um ano fecundo, e que a descoberta da palavra de Deus nos leve a um maior compromisso com a criação. Um bom estudo para todos e todas.
Louvado seja nosso Senhor Jesus Cristo. Amém.

Dom Dario Campos, ofm.

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Arquidiocese

Fundada em 1958 e abrangendo 15 municípios do Estado do Espírito Santo conta com 73 paróquias. Desde 2004 D. Luiz Mancilha Vilela é o arcebispo da arquidiocese.

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